sexta-feira, 26 de junho de 2009

“Maicon” Jackson (1958-2009)


Acompanhando as notícias da morte de Michael Jackson, não vi ninguém falando de um dos seus mais importantes legados à cultura brasileira: a introdução na nossa língua do vocábulo “Maicon”, nome que passou a batizar milhares de garotos pelo País – em sua quase totalidade, de origem pobre. Hoje, podemos encontrar “maicons” até na lateral da seleção brasileira.

Mas o que importa mesmo é a sua música. Com um talento diretamente proporcional à sua loucura, Michael teve uma carreira quase irrepreensível até o disco Thriller (1982), o álbum mais vendido da história. Depois, a sua música foi se deteriorando à medida que seu rosto desfigurava e a pele branqueava.

Não sou grande conhecedor de sua obra, mas é muito difícil não ser tocado pelos primeiros singles do Jackson 5 e por discos como Off The Wall (1979) e Thriller (1982) – espécies de Revolver e Sergeant Pepper’s do “Rei do Pop”. Considero o Thriller, a propósito, o disco mais bem produzido que já ouvi, em grande parte devido ao trabalho do mestre Quincy Jones. Ali está tudo no lugar: não tem instrumento sobrando ou faltando, a timbragem dos instrumentos é de extremo bom gosto e a execução dos músicos é perfeita e “com alma”. Com a cama forrada por Jones, Michael Jackson entrou na parceria com quatro composições (Billie Jean, Beat It, Wanna Be Startin’ Something e a faixa título), além de um vocal poderoso.

Paradoxalmente ao início da negação de sua negritude, os clipes de divulgação do Thriller acabaram abrindo as portas da MTV para os artistas negros norte-americanos – que, até aquele momento, eram renegados pela emissora. Aliás, neste ponto, cabe lembrar que a qualidade e esforço de produção dos clipes do Thriller fizeram com que este tipo de divulgação atingisse novos patamares — inclusive financeiros.

Voltando à cobertura pela imprensa, cheguei a assistir na GloboNews uma entrevista com o jornalista musical Arthur Dapieve sobre o legado de Michael Jackson para a música moderna. Achei que ele quis mostrar um equilíbrio e sofisticação na sua análise e acabou diminuindo a importância do “Rei do Pop”, colocando-o somente como mais um no pacote de música negra norte-americana pós-James Brown.

De fato, talvez Michael Jackson esteja musicalmente abaixo de James Brown, Al Green, Stevie Wonder, Marvin Gaye e outros ícones da música negra norte-americana. Mas o que coloca numa posição de destaque, na minha opinião, é a união de suas canções com o seu lado performático (incluindo o fato de ser exímio dançarino, como seu mestre James Brown), o seu carisma diante do grande público e a sua compreensão elevada de como a indústria musical funciona. Foram esses aspectos que o tornaram fenômeno, servindo de influência para uma variada gama de artistas – alguns de baixa qualidade, é verdade – nos últimos vinte e cinco anos (de Beyoncé a Justin Timberlake; de Black Eyed Peas a Fall Out Boy).

A morte de Michael Jackson, por conta de sua popularidade, acabou ofuscando o falecimento de outra celebridade, a ex-Pantera e super gata Farrah Fawcett. Numa dessas estranhas coincidências da vida, a Bela e a Fera acabaram deixando o mundo no mesmo dia, com destaque na imprensa para a Fera.

13 comentários:

  1. Pinduca, excelente texto. Gostei muito da avaliação do artista. E também pela observação do surgimento do fenômeno dos 'Maicons' no Brasil e o pertinente comentário sobre a cobertura. Também escrevi sobre o assunto, mas preferi me limitar à cobertura da Globo News e suas derrapagens.

    Abraço.

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  2. Eu também ouvi o Artur Dapitolo falar um monte de obviedades. Preferi a análise Pinduquiana, embora discorde profundamente sobre a possibilidade de Maicon estar abaixo de James Brown ou outros "brothers". Michael sobrava em musicalidade até o Thriller. Se você pegar a edição comemorativa de 25 anos vai ver uma gravação de Bilie jean, dessas de Tascam, provavelmente, que comprova o que estou falando. Tá tudo ali, mesmo sem Quincy Jones.

    Abs,
    Ocean

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  3. como a coisa mais legal de um blog (além do texto do dono, claro) é a troca de ofensas nos comentários, gostaria de começar mandando o Ocean tomar no meio do cu e parar de falar merda...
    concordo que MJ era foda (com ou sem os Jacksons), mas colocá-lo no mesmo nível de James Brown é loucura. JB criou um estilo, uma linguagem musical que rompeu com o curso da música negra norte-americana.
    MJ era uma cria, no melhor sentido da palavra, do legado de JB. e seguiu isso à risca, só que ao invés de espancar suas mulheres, brincava de pique-cu com suas crianças.

    abs
    Bidola

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  4. Isso, vamos colocar o índio no lugar dele...

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  5. Essa questão se o MJ é, musicalmente, melhor ou pior do que os outros artistas negros citados tá meio polêmica mesmo. Já recebi e-mail de gente dizendo que acha o MJ tão bom quanto os outros(assim como o Cristóvão) e também de gente que acha a própria iniciativa de comparar valores artísticos perigosa.
    Do meu lado, mantenho o que disse no texto: acho que MJ era um grande talento musical, mas o que o tornou fenomenal foi a união de sua música com outros aspectos artísticos.
    abs.

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  6. E aí Piruca?
    Curti a análise de MJ. Curti mais ainda o comentário que mandou o Cristóvão tomar no cu... Agora, falando sobre a morte de MJ, se é que podemos tirar algo de positivo da situação, acho que a ausência dele vai abrir espaço para que os demais Jacksons sejam finalmente reconhecidos pela sociedade e o meio musical. Assim, veremos o resnacimento de Jermaine, Jackie, Marlon e Tito, que já estão trabalhando em uma nova versão de "I will be there" dedicada ao irmão Michael ou, como eles carinhosamente o chamavam, "Freak-White-dude-who-likes-to-play-car-and-garage-with-kids"

    Alano

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  7. Acabo de ver isso na TV: O MJ comprou a Apple, dos Beatles???? Ou foi só os direitos das músicas? Alguém sabe sobre isso?

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  8. Eu achava que eram só as músicas. E, pelo que entendo, nem era o catálogo inteiro: era só uma (grande) parte.

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  9. Vi o Arthur Dapieve falar isso no Manhattan Connection. Mas ele só pode ter confundido gravadora com músicas...

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  10. Hahahahaha. Muito bom, Alanis. Só lembro do Beavis & Butthead perguntando "Where's Tito, where's Tito?"

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  11. Pinduca,

    Hoje eu tava brincando com o Google Trends e sai o seguinte resultado para o Brasil: nos últimos 30 dias, na categoria entretenimento, as buscas pelos termos Maicon Jackson subiram 3050% :).

    O campeão de pesquisas pelo Maicon é o Mato Grosso, seguido do Rio Grande do Norte e... Goiás.

    Se quiser dar uma olhada:

    http://www.google.com/insights/search/#cat=3&geo=BR&cmpt=geo&date=today+1-m&q=maicon+jackson

    http://www.google.com/insights/search/#cat=3&geo=BR&date=today%201-m&cmpt=geo

    Adorei o post!

    Beijo,
    Cy

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  12. Oi, Cynthia. Valeu a visita e o envio da pesquisa no Google Trends. Do alto da minha ignorância internética, eu nem sabia da existência dessa ferramenta. Essa história do aumento na pesquisas por Maicon é bem retrato do Brasil, mesmo.

    A propósito, as últimas notícias que tive suas foram dadas pelo Capa, que foi te visitar e voltou contando uma história de um show do Fish (ex-vocalista do Marillion), no qual ele usou o GPS do IPhone - ou do carro - para voltar para a sua casa. Não entendi até agora se ele gostou mais da cidade ou do GPS (rs).

    Bjs.

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  13. Hahahahahaha. Ele gostou com certeza mais do GPS! O do carro entregaram para ele desmontado e, pasmem, quem montou fui eu! A necessidade faz a gente descobrir que pode fazer as coisas mais improváveis, como montar um GPS desmontado para o Capa.

    Aliás ele me deu de presente de aniversário o melhor presente que já ganhei: uma colar-bússula. Eu sempre fui uma perdida e fui presenteada por nascer a tempo de poder carregar o sentido de direção em um aparelho fora da minha cabeça (porque dentro dela simplesmente não ía rolar...)

    Não sei porque escrevi tudo isso... cabeça de mulher se desvia com meio motivo :). Coloquei um link para o seu blog no meu. Muito legal aqui, voltarei sempre!

    Bjs!

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