terça-feira, 17 de novembro de 2009

Clínica de Desintoxicação Musical














Outro dia, estava almoçando no aprazível e levemente insosso restaurante natural perto da minha casa, quando, de repente, um som de saxofone começou a temperar de melodia o recinto. O repertório, composto por standards da música pop, assemelhava-se um pouco à programação da rádio Antena 1, criando um ambiente agradável — ou pelo menos, não incômodo — à clientela do lugar.

Apesar de conhecer e até gostar da maioria das músicas, fiquei questionando em minha mente aquela forma tão batida de “arte”: Por que essas músicas de bar e restaurante tendem a carecer tanto de estilo e de uma execução mais visceral? Como esse saxofonista, que me parece bom tecnicamente, poderia agregar valor e adicionar “sal” ao seu trabalho? Nesse sentido, passei a pensar nas minhas próprias carências musicais, conseqüências diretas das minhas escolhas desde a adolescência, que me fizeram me aproximar de alguns gêneros e deixar outros de lado. E, assim como eu, passei a notar que quase todos os meus colegas músicos e/ou amantes de música tinham também as suas opções bem definidas, o que, se sob certo ponto de vista, ajudavam a construir os seus estilos, sob outro, deixavam lacunas na sua musicalidade. No meio desses meus devaneios, tive uma idéia que me pareceu bem pertinente naquele momento: montar uma espécie de Clínica de Desintoxicação Musical.

E para que serviria exatamente essa clínica? Bem, a idéia é que o cliente que decida se internar — ou, ao menos, fazer uma consulta — seja avaliado por especialistas em Rock e Pop, que consigam detectar os seus vícios musicais, para, a partir dessa análise, receitar os remédios adequados para a superação da “doença”. No caso, os medicamentos seriam compostos por playlists de gêneros que esse amante da música nunca ouviu, seja por preconceito ou simplesmente por falta de oportunidade.

Para mostrar como funcionaria a clínica, vamos utilizar como primeiro exemplo o tal saxofonista que ouvi outro dia no restaurante natural. Ora, sua música, apesar de apresentar técnica, carece claramente de estilo e inventividade. Então, o que receitar para esse paciente? Bem, acredito que doses cavalares de Velvet Underground, Suicide, David Bowie e Roxy Music possam fazer muito bem a esse rapaz. Como ele parece gostar de música brasileira, colocaria no composto um pouco de Arnaldo Baptista fase Loki, de Walter Franco fase Revólver e até um punk rock sujo da seminal coletânea Começo do Fim do Mundo (Lixomania ou Olho Seco poderiam cair bem). O importante é mostrar que nem sempre a melodia é a única solução de uma composição: às vezes, precisamos de atitude e descompromisso com a técnica também.

Partamos para outro caso hipotético: o de um viciado em punk rock e sons mais pesados. De certa maneira, sua visão musical é antagônica à de um músico de bar: provavelmente esse paciente, se for músico, toca mal e acha que o discurso ideológico é o principal elemento de uma canção. Bem, ele precisa se desapegar dessa visão minimalista e de excessiva contestação. Desta forma, a receita para sua desintoxicação pode estar em aplicações diárias de Billy Joel, Paul McCartney e Elton John. Acredito que um Burt Bacharach e até um disco de rock progressivo (Yes ou King Crimson) possam fazê-lo bem. Numa última etapa, esse viciado em discursos ideológicos poderia ouvir a orquestra de Ray Conniff e a Orquestra Filarmônica de Berlim, regida por Herbert von Karajan, tocando a 6ª sinfonia de Beethoven.

Ok, Ok. Às vezes, o tratamento parece radical, mas, acreditem, tem grandes chances de fazer efeito. Vamos então a um terceiro caso, para tentar tornar mais clara essa minha revolucionária idéia: um músico de banda indie, com fortes influências shoegazer. Bem, esse paciente precisa urgentemente elevar a sua autoestima e masculinidade musical, não necessariamente nessa ordem. Nesse caso, é bom mantê-lo afastado de bandas como Belle & Sebastian, Cardigans e outras fofices. Em contrapartida, esse músico deverá ouvir, de preferência amarrado a uma camisa de força, grupos como Van Halen, AC/DC, Creedence Clearwater Revival e, numa última e talvez traumática etapa, ZZ Top. Para torná-lo desapegado de artes gráficas estilosas, seria interessante ainda apresentá-lo às capas horrorosas do Funkadelic.

O último caso trata de músicos virtuosos, que gostam de Stevie Vai, Michael Angelo e Paul Gilbert, mas que revelam alguma afinidade com o gênero brasileiro Chorinho também. Bom, para esses pacientes, um bom punk rock (para dar ideologia) e alguns conjuntos de reggae (para ensinar questões de ritmo e alma) podem fazer toda a diferença. O tratamento deve se iniciar com doses de The Clash e Peter Tosh, progredindo para Rancid, Aswad, Steel Pulse, e terminando com Asian Dub Foundation, Arctic Monkeys e talvez alguns Raggas.

De qualquer forma, essas são fórmulas generalistas, apresentadas somente para exemplificar o trabalho da futura clínica. Caso, ao ler esse texto, você identifique algum vício em sua formação musical, o recomendável é procurar um especialista que possa ajudá-lo a se desintoxicar. Não tente se automedicar, pois alguns quadros podem até se agravar com tal procedimento. Os especialistas da Clínica de Desintoxicação Musical estão de braços abertos para receber aqueles que desejam ampliar e até mesmo refinar seu gosto musical.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

As guitarras entrelaçadas e nada convencionais de Nova York











É engraçado como a música, geralmente, está conectada à região de onde provem. Assim como sotaques, hábitos, tradições, culinária, muitas vezes é possível identificar a origem de uma banda apenas pela sua sonoridade. Às vezes, essa marca regional é tão forte, que acaba dando nome ao próprio estilo musical, como o Southern Rock (ou rock sulista) de Allman Brother, Lynyrd Skynyrd e Creedence Clearwater Revival, ou o Rock Gaúcho, aqui no Brasil.

A cidade de Nova York, nos Estados Unidos, é muitas vezes apontada como o grande centro cosmopolita do mundo. E, não à toa, suas bandas costumam trazer esse lado, digamos, mais “descolado” em sua bagagem: de Velvet Underground a Ramones; de Blondie a Vampire Weekend; de New York Dolls a Beastie Boys; de Talking Heads a Rapture, a sensação ao se ouvir esses grupos é a de abrirmos uma porta para o mundo, de estarmos penetrando num caldeirão multicultural, mesmo que isso signifique estar enclausurado em uma selva de pedra.

Além do perfil antenado, o rock novaiorquino também é responsável por gerar uma das escolas mais interessantes em termos instrumentais: a das guitarras entrelaçadas e nada convencionais, que, diante de tantas referências, ousam fugir à herança clássica e pura do Blues. Nesse aspecto, três bandas de gerações diferentes representam de forma brilhante essa característica: Television, Sonic Youth e The Strokes. Funcionando num esquema quase de árvore genealógica, elas se calcam na produção de seus antepassados, sempre prestando reverência ao patriarca da vanguarda novaiorquina: o Velvet Underground, banda que vestia roupas pretas e falava de heroína em pleno florescer do colorido movimento hippie; que vendeu poucos discos em sua época, mas veio a influenciar várias gerações posteriores.

Dessa herança do Velvet Underground somada às vanguardas do jazz (Be Bop, Fusion), surgiram as guitarras do Television, em meados da década de 1970. Tive a oportunidade de assistir a uma apresentação deles no Tim Festival, em 2005, e posso dizer que foi um dos melhores shows da minha vida. É impressionante como as guitarras de Tom Verlaine, com timbres quase limpos, casam com os sons mais saturados do doidão Richard Lloyd, formando uma espécie de balé de riffs e solos de guitarra, no qual mal se delimita o fim da frase de um e o início da do outro. Acredito que, como eu, muitos tenham dificuldade de, só de ouvido, saber quem é Lloyd e Verlaine dentro das canções do Television, tamanha a interação dos guitarristas. E a tal “renúncia do blues” faz com que, ao se assistir às apresentações da banda, vejamos os dedos dos dois guitarristas (principalmente, Verlaine) deslizando pelos braço da guitarra por caminhos não muito tradicionais, numa jam session que parece residir num lugar entre o rock e o jazz. Realmente, para um estudante de guitarra, o show do Television vale quase como uma aula do mestrado.

A dupla de guitarristas da banda oitentista Sonic Youth, Thurston Moore e Lee Ranaldo, parece ter estudado com afinco as lições dos mestres do Television, aprofundando ainda mais a questão do experimentalismo, com toques de música dodecafônica e John Cage. E se a onda do Television eram as jams e as escalas inusitadas, o Sonic Youth preferiu investir nas afinações esquisitas, nas longas e climáticas partes instrumentais e na extrapolação dos limites do próprio braço da guitarra. E, novamente, o entrelace das frases cria uma enorme dificuldade — no bom sentido — de identificação de quem é um ou outro guitarrista nas músicas do Sonic Youth. Um ponto interessante da sonoridade das guitarras da banda tem a ver com o que um grande amigo declarou a respeito do Lee Ranaldo (e que parece servir para o Thurston Moore também): a impressão que dá é que ele pega as escalas musicais naquelas revistas de violão e guitarra e só toca as notas onde o pontinho NÃO está marcado. Ou seja, é dissonância em sua forma mais pura, empunhada por uma das mais criativas e entrosadas dupla de guitarristas do rock.

Por fim, mas não menos importante, temos a rapaziada (esse termo é meio escro***) do The Strokes. Celebrado no começo do milênio como a grande sensação do rock moderno, o grupo de John Casablancas deixou de ser novidade e passou a ser alvo de algumas críticas no decorrer de sua carreira. Hypes à parte, trata-se de um bandão, formado por uma das mais afiadas dupla de guitarristas que já vi. Também tive a oportunidade de assisti-los no Tim Festival de 2005 e fiquei de cara com as guitarras extremamente bem timbradas, arranjadas e executadas. Na linhagem das guitarras novaiorquinas, o Strokes deixa o experimentalismo do Sonic Youth e as jams do Television para trás, investindo numa fórmula mais pop, de músicas de curta duração. De qualquer forma, a dupla de guitarrista do Strokes está longe de ser tradicional: tanto na forma de tocar seca e de riffs certeiros de Albert Hammond Jr. quanto nas frases mais longas virtuosamente empunhadas por Nick Valensi estão presentes referências ao lado jazzy do Television e à própria visão mais “aberta” de pensar da escola de rock novaiorquina.

Três grandes bandas de rock formadas por fenomenais duplas de guitarristas. O que Television, Sonic Youth e The Strokes nos provam é que, a despeito de toda a tradição que cerca o já cinqüentão rock’n’roll, as guitarras ainda podem surpreender e extrapolar limites, quando pensadas de forma inteligente e criativa. Neste caso, o cosmopolitismo novaiorquino ajudou a escrever um dos capítulos mais sofisticados e elegantes dessa história.

domingo, 1 de novembro de 2009

Banguela Records: há 15 anos, nasciam os primeiros dentes













Num tempo não muito distante, em que o acesso à internet ainda engatinhava, o modelo de império musical comandado pelas grandes gravadoras dava seus primeiros sinais de declínio. A despeito de as majors e seus artistas populares ainda gerarem receitas consideráveis, a experiência exitosa dos selos independentes - principalmente, na Inglaterra e nos Estados Unidos - desde os anos 80, mostrava que bandas boas não se acham (ou compram?) em qualquer esquina. De vez em quando, algumas dessas bandas e gravadoras menores cometiam a ousadia de furar as barreiras mercadológicas impostas pelas majors, estourando nas rádios e caindo no gosto do grande público.

Para não tomar rasteiras dos nanicos, as grandes gravadoras, além de utilizarem o velho recurso de contratar as tais bandas em ascensão, acabaram encontrando uma outra maneira de resolver o problema: passaram a se aliar aos seus pretensos adversários, incorporando - e, às vezes, até criando – selos alternativos. A iniciativa se mostrava boa para os dois lados: os selos pequenos ganhavam com a estrutura de distribuição das majors, enquanto as grandes gravadoras adquiriam qualidade artística e uma espécie de laboratório para seus futuros projetos. O estouro do Nirvana em 91, revelado pela pequena gravadora Sub Pop (e depois contratado pela major Geffen), trouxe glamour e respeito às bandas alternativas e fez com que as grandes gravadoras, mais do que nunca, buscassem uma maneira de se acomodarem a esse novo universo underground.

O Banguela Records, atrelado à major Warner, foi talvez o selo brasileiro com mais visibilidade nos anos 90. Apesar de existiram outros bastante relevantes no mesmo período - como o Chaos e o Superdemo, da Sony, e o Plug, da BMG - o Banguela conseguiu imprimir sua marca de uma forma diferenciada, muito por conta da notoriedade trazida pelos proprietários do selo, os Titãs, e, principalmente, pelo perfil visionário e bom de marketing do seu diretor artístico, o jornalista e produtor musical Carlos Eduardo Miranda.

Eu tive a sorte de participar um pouco dessa história, por meio do Maskavo Roots, uma das primeiras bandas contratadas pelo Banguela. Meus primeiros contatos com o que viria a ser o selo foram feitos em maio ou junho de 1993, quando o Fred, baterista do Raimundos, levou a 1ª demo do Maskavo para a redação da revista Bizz, onde trabalhava o Miranda, à época bastante dedicado à divulgação de grupos novos. Foi o próprio Fred quem nos informou que o Miranda havia gostado da nossa demo e, desta forma, nos incentivou a entrar em contato com o jornalista da Bizz. Nesta época, o selo ainda nem existia e o meu intuito era mais negociar uma nota sobre o Maskavo na Bizz, o que realmente acabou rolando naquele segundo semestre de 1993.

Passei, então, a falar por telefone com o Miranda de vez em quando. Além de atuar como jornalista, ele também dava algumas dicas para as bandas iniciantes: - Tenta arrumar um show aqui, fala com o produtor “x” acolá. Lembro até de um dia em que o Miranda me passou o telefone de dois “caras legais” para trocar idéias em Recife: Fred 04 e Chico Science. Acabei nunca ligando para eles, mas, outro dia, fazendo uma faxina na casa dos meus pais, achei engraçado me deparar com o papelzinho onde tinham os números anotados. Bem, mas voltando propriamente ao selo, recordo-me de, em uma dessas ligações para o Miranda, ele me dizer que tava rolando uma idéia de montar uma gravadora com os Titãs, para eu ficar ligado naquilo, pois o Maskavo era uma das bandas cotadas para entrar naquele barco.

Dito e feito. Acho que um pouco depois da primeira edição do seminal festival independente Junta Tribo, ocorrido em agosto de 1993, em Campinas, a Folha de São Paulo publicou uma matéria com os Titãs, na qual eles falavam sobre a criação do Banguela Records, selo cujo nome, se não me engano, havia sido inspirado na música (e título do disco) Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas. A foto que estampava a matéria era do Raimundos, que, mesmo sem ter disco lançado, já era apontado com a grande revelação do rock brasileiro naquele período, ao lado de Chico Science & Nação Zumbi. Se o quarteto de forró-core brasiliense era nome certo dentro do Banguela, as outras quatro bandas que comporiam o cast do selo ainda não estavam definidas: havia uma certa disputa entre um grupo maior de umas sete ou oito bandas, entre elas, o Maskavo.

Apesar de, do alto do meu pessimismo e baixa auto-estima, eu ter certeza absoluta de que o Maskavo não passaria nessa peneira, recebi no final do ano de 1993 um telefonema do Miranda, dizendo que havíamos sido selecionados para o cast do selo, ao lado de mundo livre s/a (PE), Little Quail and the Mad Birds (DF), Graforréia Xilarmônica (RS) e os já certos Raimundos (DF). A idéia, segundo o Miranda, era gravar os Raimundos em janeiro de 1994, no estúdio Be Bop, em São Paulo, e, em março, o mundo livre e o Maskavo ao mesmo tempo, cada um em sua cidade de origem. Em determinado momento, houve uma mudança de planos, com o Little Quail passando à nossa frente, pois já os membros estavam morando em São Paulo, e, depois, o Kleiderman, projeto paralelo dos “patrões” Branco Mello e Sérgio Britto. A gravação do Maskavo, portanto, foi adiada para o segundo semestre de 1994, o que, num primeiro momento, nos deixou bastante ansiosos.

Para controlar a ansiedade e sabermos um pouco mais do que estava rolando, além de falarmos por telefone quase toda semana (com as secretárias Lara e Renata), passamos a visitar esporadicamente a sede do Banguela, no próprio estúdio Be Bop, no bairro de Pinheiros, quando íamos fazer show em São Paulo. Em uma dessas visitas, tivemos a oportunidade de escutar a mixagem do álbum Samba Esquema Noise, do mundo livre s/a. Lembro de ficar impressionado com a ousadia e doideira da música Terra Escura, que trazia um sampler ao contrário de um jingle de uma marca de molho de tomate. Neste ponto, era comum encontrar membros das outras bandas na sede do selo também, que acabava servindo como QG para os artistas do cast. Além dos nossos colegas brasilienses do Raimundos e do Little Quail, tivemos bastante contato com o pessoal do mundo livre, pois, além da citada visita à mixagem deles, durante a nossa gravação foram os pernambucanos que estavam lançando o seu disco em São Paulo. Com os gaúchos do Graforréia, acabamos tendo pouco contato, pois, assim como a gente, eles continuaram morando em seu estado de origem - além de terem optado por gravar o disco de estréia da banda, Coisa de Louco II, no Rio Grande do Sul.

Uma das características do Banguela era a extrema informalidade como as coisas eram tocadas, o que, por muitas vezes, acabava descambando para o lado da desorganização, mesmo. Nós, do Maskavo, por exemplo, assinamos o nosso contrato numa filial do McDonalds em Ipanema (RJ), levado pelo Fred, baterista do Raimundos. Além disso, dava para ver, tanto nas nossas visitas quanto na gravação do nosso disco, que as leis da administração não eram tratadas de forma muito ortodoxa por ali. O lado positivo era a ótima estrutura de gravação oferecida para as bandas: um ótimo estúdio (Be Bop), com excelente técnico (Beto Machado) e produtores tarimbados (Miranda e, às vezes, um Titã). Além disso, a experiência e os contatos jornalísticos do Miranda faziam com que os discos tivessem um amplo espaço na mídia. Ou seja, não havia esquema melhor para uma banda iniciante naquele período.

Quanto aos Titãs, alguns apareciam mais no estúdio do que outros: lembro de muitas visitas do Branco Mello a nossa gravação, para encontrar o seu amigo Nando Reis, um dos produtores do nosso disco. Eles também costumavam emprestar equipamentos para as gravações (guitarras, baixo, bateria, violão, amplificadores) e até faziam participações nos discos - Nando Reis tocou viola no disco dos Raimundos, Branco Mello e Sérgio Britto fizeram backing no disco do Maskavo e até a atriz Malu Mader, esposa de Toni Belotto, cantou na faixa Musa da Ilha Grande, do disco do mundo livre. Os Titãs ainda davam espaço para as bandas do selo abrirem os seus shows: cheguei a assistir a um show de abertura dos Raimundos, na boate brasiliense Zoom, na turnê do álbum Titanomaquia. Nós, do Maskavo, chegamos a abrir um show para os Titãs, gratuito, no Vale do Anhagabaú, mas tomamos pedrada da platéia depois de tocarmos um “sambinha” (trecho da nossa música “Quinta”).

Um aspecto interessante se refere aos bastidores do selo. Lembro de, durante um jantar na gravação do nosso disco, o Miranda comentar chateado o fato de ter perdido o Planet Hemp para o selo Superdemo (Sony), tocado pela produtora Elza Cohen. Pelo que entendi, a banda de D2 e Cia. estava negociando o lançamento de seu primeiro álbum com o Banguela, mas a demora no fechamento de um acordo somado ao recebimento de uma boa proposta da Sony fizeram a banda carioca cair fora. Hoje, olhando para trás, dá para ver que, de fato, o selo dos Titãs estava perdendo uma espécie de “mina de ouro” naquele momento.

O primeiro disco do Maskavo Roots, gravado em outubro e novembro de 1994, acabou sendo lançado apenas em março de 1995. Acho que o do Graforréia Xilarmônica saiu um pouco depois, ainda no primeiro semestre do mesmo ano, fechando o ciclo das primeiras cinco bandas contratadas pelo selo. Depois disso, o Banguela realizou outros lançamentos, como a boa estréia dos campinenses do Língua Chula, os primeiros álbuns dos brasilienses do Pravda e dos paulistanos do Psycho Drops, a coletânea de bandas curitibanas Alface e uma fita cassete dos paulistas do Party Up. Mas essa fase eu já não acompanhei tão de perto.

O engraçado é que o fim do Banguela, de certa forma, parece estar associado ao Maskavo Roots. Mais ou menos na época do lançamento do nosso disco, os Titãs voltaram a ser agenciados pelo mega empresário Manoel Poladian, famoso pelos “sucessos” de RPM, Rita Lee, Elis Regina, Jorge Benjor e dos próprios Titãs, entre outros. Por incentivo dos diretores do selo (Miranda e o norte-americano Brian Buttler) e dos próprios Titãs, acabamos negociando e assinando contrato com o Poladian, no dia em que abrimos o show para o Jorge Benjor no Ginásio do Ibirapuera. Parecia uma jogada de mestre: éramos a banda mais pop do selo e estávamos indo para as mãos de Midas do mega empresário Manoel Poladian, o que tinha tudo para nos fazer estourar e, por sua vez, trazer recursos para a gente e para o próprio selo. No entanto, alguma coisa deu errado naquele processo e o tiro saiu pela culatra: pelo que sei, o advogado do Poladian teve acesso aos contratos do Banguela (com a Warner e com as bandas) e, achando toda a estrutura jurídica e administrativa deveras amadora, considerou que aquilo poderia trazer risco financeiro para os Titãs. Daí em diante, na minha visão da história, só vi as coisas degringolando para o selo e para a própria carreira do Maskavo Roots.

Pelo que acompanhei posteriormente, já a distância, depois de sair do Maskavo, vi o Banguela se transformando em Excelente Discos (nesta nova etapa, filiado à Abril Music) e lançando discos legais, como o primeiro do Acabou La Tequila e o segundo do mundo livre, e coisas que eu considero de gosto mais duvidoso, como Virgulóides e Maria do Relento. Quanto às cinco bandas originais do Banguela, com o fim do selo, cada uma foi tomando o seu rumo: os Raimundos, estouradíssimos, passaram a integrar o cast da Warner; o mundo livre continuou a parceria com o Miranda na Excelente Discos; o Little Quail foi para a Virgin; o Maskavo foi para o selo Chaos, da Sony, e a Graforréia, pelo que sei, lançou seu segundo disco, Chapinhas de Ouro, de forma independente.

Apesar dos pesares, minhas lembranças daqueles tempos são as melhores possíveis: dos cartões amarelo (advertência), vermelho (sai do estúdio e volta mais tarde) e PRETO (proibido de entrar no estúdio o dia inteiro) dados pelo Miranda durante a nossa gravação até a zona no ônibus que levou os artistas do selo para a primeira edição do Video Music Brasil, da MTV, em 1995, o que ficou foi a sensação de ter participado de algo original e importante para um período de consolidação e, ao mesmo tempo, de mudança de comportamento do rock brasileiro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Yes, We Can














Já notaram que, de vez em quando, rola uma onda de bandas brasileiras cantando em inglês? Eu estava aqui pensando com meus botões e fiz uma associação sem fundo sociológico, mas que pode ter sentido. Essa onda “for export” começa de forma tímida com o esgotamento artístico de uma geração que canta em português e cresce quando um dos grupos que optam pelo inglês faz sucesso no exterior, voltando a diminuir depois que a geração seguinte emerge entoando novamente versos na língua pátria e resgatando valores nacionais.

Deixem eu explicar melhor essa história, pois acho que já presenciei dois ciclos assim. Se não me engano, o Sepultura começou a estourar no exterior em 1987/1988. Antes disso, existiam poucas bandas que cantavam em inglês no Brasil, as quais nem consigo lembrar no momento (acho que os santistas do Harry, os brasilienses do Spigazul e os paulistanos do Maria Angélica Não Mora Mais Aqui, do jornalista Fernando Naporano, são exemplos). O êxito do Sepultura no exterior marca a proliferação no underground brasileiro de diversos grupos, de estilos diferentes, cantando em inglês: Pin Ups, Killing Chainsaw, Low Dream, Oz, Okotô, Second Come, entre outros. O que incentivou essa proliferação, além do esgotamento da geração anterior (Legião, Paralamas, Titãs e Cia., que já começavam a se repetir)? A sensação de que, se o Sepultura pôde, outros brasileiros também poderiam ultrapassar as fronteiras nacionais, num clima que remete à popular e já desgastada frase do presidente Barack Obama: “Yes, We Can”.

O recente estouro do Cansei de Ser Sexy “na gringa” tem um esquema meio parecido com o do Sepultura, com algumas atualizações: antes do CSS, várias bandas independentes já se aventuravam no idioma bretão (Thee Butcher’s Orchestra, MQN, Mechanics, Madeixas, Supersoniques, Maybees, Forgotten Boys, entre outras), mas o êxito de Lovefoxxx & Cia no exterior trouxe a opção pelo inglês para outro patamar. O sucesso de Mallu Magalhães em âmbito nacional e as recentes indicações das bandas Holger e Black Drawing Chalks a categorias relevantes do VMB, da MTV, mostra que, de certa forma, esses artistas estão sendo levados mais a sério. E, novamente, a mídia e o público voltam a apostar as suas fichas na next big thing brasileira.

Numa época em que eu ainda estava vindo ao mundo, na primeira metade dos anos 1970, dizem que vários artistas também faziam essa opção pelo inglês, entre o quais o galã Fábio Júnior - muito antes de imortalizar o bordão “brigaduuuu” no Cassino do Chacrinha - e os atuais sertanejos Chrystian e Ralph. Até que um maluco chamado Maurício Alberto resolveu traduzir o seu nome, literalmente, para Morris Albert e lançar uma música chamada “Feelings”, que acabou estourando mundialmente - sendo regravada, inclusive, meio jocosamente pelo Offspring há alguns anos. Resultado: outros artistas brasileiros também resolveram seguir os passos de Maurício Alberto rumo ao sucesso no exterior. Mas a onda acabou minguando depois que a sorte parou de aparecer para os pretendentes à nova estrela internacional.

A grande questão é se, com a internet e o crescente domínio da língua inglesa pelas novas gerações, o mercado brasileiro vai abrigar mais facilmente as suas bandas que optam pelo inglês, como já acontece nos ditos países socialmente mais avançados, como Suécia, Noruega ou Holanda. Lógico que, mesmo que o progresso social chegue a estas plagas, a nossa situação talvez nunca fique suficientemente semelhante a desses países citados, até porque, em termos de música popular, temos (ou parecemos ter, pelo menos) muito mais tradição do que eles – o que, por conseqüência, talvez gere um certo apego à nossa língua pátria (ou “mátria”, como diria Caetano Veloso na música “Língua). De qualquer forma, dentro do meu universo especulativo e pouco apegado aos métodos científicos, a minha aposta é que, mesmo que o mercado brasileiro não abra espaço igualitário para os dois idiomas no futuro, essas ondas de bandas cantando em inglês provavelmente ficarão cada vez mais constantes e duradouras.

Aguardemos, portanto, as cenas dos próximos capítulos...

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Nas ondas do rádio


Hoje (15), serei o convidado do programa Senhor F 100.9, veiculado às quintas-feiras, das 22h às 24h, na Rádio Cultura FM, de Brasília. O programa é produzido e apresentado pelo editor do site Senhor F, Fernando Rosa, e pelo jornalista Pedro Brandt, e traz em sua programação rock independente brasileiro, novidades internacionais, clássicos e raridades.

Estou quebrando a cabeça para tentar preparar uma seleção musical maneira e que, portanto, não acabe com a credibilidade do programa. Até o momento, já separei Jimi Hendrix, Rachid Taha, Bob Marley, Dream Syndicate, Mudhoney, Buzzcocks, The Slickers, Steely Dan, The Clash, Afghan Whigs e até novidades como The XX, Dirty Projectors e Fleet Floxes (sim, agora eu os conheço e até gosto). Talvez role um bloco de bandas de Brasília também.

Até a hora do programa, pode ser que a escalação mude, saindo uma banda que não esteja jogando tão bem (no meu campo auditivo) para entrar outra, da reserva, em melhor forma (no time do meu coração). Vamos ver o que vai dar.

Como o nome do programa já entrega, a Cultura FM ocupa a freqüência 100.9 do dial. Pela internet, ela pode ser sintonizada aqui.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O inenarrável prazer de assistir a uma banda péssima


Eu tenho um prazer meio sádico que preciso confessar para vocês. Na verdade, nem sei se é tão sádico assim: talvez esteja mais no ramo das esquisitisses ou, como preferem os psicólogos, idiossincrasias. Ou não. Num mundo tão populoso e moderno, onde as pessoas compartilham hábitos estranhos, como organizar flash mobs ou venerar (a novela mexicana camuflada de seriado norte-americano) Grey’s Anatomy, acho que meus prazeres nem são tão diferentes assim. Bom, preciso confessar-lhes antes que eu perca a coragem. Então lá vai: - Eu adoro assistir a shows de bandas péssimas.

Não sei quando essa mania começou: talvez ela venha da mais tenra idade. Só sei que um dia, já adulto, me toquei de que, simplesmente, estava obtendo quase o mesmo prazer ao assistir uma banda ótima ou outra péssima. A princípio, estranhei. Depois, relaxei e passei a me sentir como naquele antigo jogo da Lotto (ou Sena), em que você ganhava o prêmio se acertasse ou errasse feio todos os números sorteados. E, neste ponto, assim como na velha loteria, não existe meio termo no meu gosto musical: para curtir uma banda, ela tem que ser beeeem legal ou esdruxulamente p-é-s-s-i-m-a. Bandas boazinhas, esforçadas, com algum talento ou meio ruinzinhas não fazem mesmo a minha cabeça. Tem que estar em algum extremo da qualidade musical. Bem, acho que deu para entender, né?

A esta altura, acredito que já tenha gente me classificando como um fã inveterado de cultura trash. Mas acho que a história não é muito por aí, não. Vejam bem, eu não sou daqueles caras que colecionam filmes do Ed Wood, do Afonso Brazza ou do Zé do Caixão. Também não me vejo entre essa galera que curte o visual "zumbi" e som meio The Cramps e outras garageiras mais toscas. Meu lance é outro: eu saio de casa para ver bandas boas, mas, no meio de um festival, acabo assistindo sem querer a um grupo péssimo. Neste momento, passo a gostar tanto – ou, às vezes, mais - do conjunto ruim quanto do outro que fui ver. E aí, aquelas músicas horrorosas não me saem mais da cabeça. Começo a especular como os membros do grupo se juntaram, como surgiram as idéias e inspirações daquelas músicas péssimas e, enfim, como eles tiveram coragem de mostrar aquele resultado tão aquém do que consideramos razoável para o público. Neste ponto, ao invés de me enquadrar na galera trash, talvez sinta até mais sintonia com um cara como Frank Zappa, que gostava de músicas mais elaboradas, mas não pôde passar incólume à grandeza de um The Shaggs – classificado pelo guitarrista doidão como “melhor do que os Beatles”.

Mas o que teriam essas bandas ruins de tão interessante? Por que elas conseguem até arrebanhar - em casos raros, como o The Shaggs - uma legião de fãs? Acho que a grande chave desse mistério talvez esteja num conceito muito conhecido, mas pouco praticado entre os artistas: despretensão. Em alguns momentos, chega a ser um alívio assistir a uma banda na qual os componentes só querem se divertir, tocar para meia dúzia dos colegas de serviço ou impressionar suas namoradas. Mesmo que façam tudo, absolutamente tudo errado, às vezes aquela atitude despretensiosa “cheira a espírito juvenil”, como já disse um maluco lá das bandas de Seattle/Aberdeen. Além disso, muitas vezes os caminhos absurdos escolhidos por esses artistas acabam trazendo algo de inovador para o rock, algo que “a moral e os bons costumes da arte” não conseguem mais captar. O que quero dizer é que, contraditoriamente, às vezes as bandas péssimas carregam consigo o melhor do Rock’n’Roll.

PS: Infelizmente, para não gerar possíveis conflitos, protestos e embaraços, não poderei citar neste texto algumas bandas péssimas (ótimas) que já assisti. Só posso dizer que tem uma que começa com a letra “A”, que realmente era péssima. Também há outra, cujo nome se inicia com “O”, que também era incrivelmente ruim. E o que dizer daquela que se inicia com a letra “F”? Ah, são tantas...

domingo, 4 de outubro de 2009

A falsa luta de classes no Rock’n’Roll











Quando comecei a escutar rock’n’roll, em meados dos anos 80, o mundo ainda era dividido em dois eixos: o socialismo soviético e o capitalismo norte-americano. Talvez por conta dessa polarização política ou pela notória influência marxista na nossa intelectualidade, muito do que era publicado na imprensa ou ensinado nas escolas tendia a trazer em suas entrelinhas uma visão de luta de classes. No mundo da música não poderia ser diferente. Ao comprar as minhas primeiras revistas de rock, estava claro que existiam dois times rivais: os punks, representando a integridade e a revolução a partir de 1977, e o Rock Progressivo, a Disco Music e os seus filhotes pop, defensores do conservadorismo e do lado obscuro da indústria cultural.

Foi dentro desse clima de guerra fria que comecei as minhas incursões no rock. E, do alto da minha pouca capacidade de discernimento juvenil, assim como comemorava nas aulas de História a tomada de poder dos bolcheviques das mãos do Czar Nicolau II na Revolução Russa de 1917, passei a vibrar por qualquer matéria que revelasse a ascendência dos punks na música pop. Na minha cabeça, bandas como The Clash e Sex Pistols haviam aniquilado seus opositores de uma maneira tão eficaz e arrasadora como Stalin fizera na Rússia, a ponto de haver só espaço para o punk e suas ramificações (New Wave, Pós-Punk, Hardcore, etc) a partir do final da década de 70.

Essa visão de luta de classes perdurou na minha mente por algum tempo. Para mim, as coisas eram vistas meio que em preto-e-branco, com um grupo sempre dominando a música pop e não deixando espaço para os dominados. Então, a minha versão da história do rock se construía mais ou menos assim: de 1955 a 1962, o domínio do pop era dos criadores do estilo, a galera do rockabilly; a partir de 1963, os britânicos, liderados pelos cavaleiros dos Beatles, invadiram e dominaram o reino da música pop até mais ou menos 1970 (com o psicodelismo surgindo a partir de 1967); a queda dos Fab Four abriu espaço para o glam rock, o hard rock e a abominável tirania dos progressivos, liderados pelo impiedoso mago Rick Wakeman, até a chegada heróica dos punks ingleses em 1977. Em 1991, depois de um longo reinado da famigerada música pop, os mártires do Nirvana e seus asseclas de Seattle saíram de seu esconderijo underground para destruir o establishment, assim como os punks haviam feito uma década e meia antes. E por aí vai...

À medida que fui ficando mais velho e vivi certas experiências, passei a notar que o desenrolar dos fatos não era tão simples quanto eu imaginava. A história reta e linear foi então abrindo caminho para uma teia mais complexa, que dava espaço mesmo para os grupos não tão em voga lançarem discos legais em períodos de domínio de “rivais”. E, na realidade, a própria idéia de luta de classes – ou estilos, ou gerações - foi ficando para trás, quando vi que os ideais de um e outro grupo não eram tão antagônicos assim – na verdade, às vezes o grupo dominante havia, inclusive, bebido na fonte da geração anterior tão execrada, embora não revelasse. No momento em que tive esse insight, senti-me como participando do o último capítulo do livro Revolução dos Bichos (Animal Farm, em inglês), de George Orwell, só que na versão da música pop: olhando por uma janela, eu podia ver, no interior de uma gravadora, representantes da esquerda e da direita do rock sentados à mesma mesa e não havia mais como distinguir quem era progressivo ou punk.

Esse meu novo sentimento se materializou num texto da revista Mojo, que li no ano retrasado (ou passado, não sei – não consegui achar a revista aqui em casa). Na matéria, o repórter pedia que alguns ícones punk rock inglês – como Johnny Rotten e Glen Matlock, do Sex Pistols, e Captain Sensible, do The Damned, entre outros – citassem e descrevessem bandas dos anos 70 das quais eram fãs, mas não podiam revelar à época do estouro do movimento. Recordo-me de ter visto o Johnny Rotten citar uma banda esquisita de rock progressivo e de alguém (talvez o Captain Sensible ou o Glen Matlock) falar que gostava de Deep Purple. Já vi num documentário também o Johnny Rotten dizer que adorava Alice Cooper antes de se tornar famoso – o que não chega a ser uma grande traição do movimento, mas também traz seu grau de surpresa.

Seguindo essa mesma linha, já vi o pai dos mal-encarados e sujos metaleiros Ozzy Osbourne confessar que seu grande sonho na juventude era ser um pop e bem arrumado Beatle. No documentário sobre a vida de Joe Strummer, The Future is Unwritten (2007), é revelado que o líder do Clash era meio hippie antes de “defender” o partido punk (e deixar de falar com seus ex-amigos doidões do 101’ers). O vocalista dos Ramones, Joey Ramone, também já revelou ter sido glam e andar de sapato de salto alto antes de vestir suas jaquetas de couro pretas. E, aqui no Brasil, quem imaginaria que o metaleiro Andreas Kisser faria um dia turnê como músico convidado dos regueiros e skazeiros do Paralamas do Sucesso?

Ao mesmo tempo, é legal notar que aquela história de que, após 1977, quem deu as cartas foram apenas os punks também é uma grande farsa. Basta olhar a discografia de artistas de outros gêneros no mesmo período: o progressivo Pink Floyd lançou Animals em 1977 e o clássico The Wall em 1979; o Queen lançou News of the World em 1977 e The Game em 1980; o AC/DC lançou Let There Be Rock em 1977 e Highway to Hell em 1979; o rei do pop Michael Jackson lançou o clássico das discotecas Off the Wall em 1979.

Outro ponto interessante é ver a mistura, com o passar do tempo, de músicos de classes pretensamente antagônicas: o ex-guitarrista da banda de disco music Chic, Nile Rodgers, se tornou um dos produtores mais requisitados dos anos 80, trabalhando, inclusive, com artistas que influenciaram ou beberam da fonte do punk rock, como David Bowie, B’52’s e Duran Duran. O vocalista da banda pop/new wave dos anos 80 The Cars, Ric Ocasek, se tornou produtor de importantes discos do rock independente norte-americano nos 90’s: do clássico blue album do Weezer a Do the Collapse, do Guided by Voices, passando ainda por Rock for Light, dos punks rastas do Bad Brains. O stoner rocker Josh Homme, vocalista do Queens of the Stone Age, acabou de produzir o último álbum dos garotos indie punks do Arctic Monkeys. Aqui no Brasil, o roqueiro/blueseiro mainstream Roberto Frejat, do Barão Vermelho, já produziu os punks do Inocentes e, hoje, o plebeu oitentista Philippe Seabra produz bandas independentes de variados estilos, como Bois de Gerião, Beto Só, Los Porongas e Superguidis, e também bandas escancaradamente pop, como as brasilienses Superáudio e Colina.

O mais importante dessa história é sacar que não existem antagonismos da forma que às vezes nos “vendem”. Até hoje, ao ler algumas publicações especializadas em música, sinto vez ou outra uma certa defesa de um determinado estilo ou grupo de artistas em detrimento de outro, como se somente uma galera pudesse produzir boa música. Mais do que fruto de uma luta de classes, talvez a história do rock seja feita de uma troca meio caótica de experiências de artistas dos mais variados backgrounds - e é daí, inclusive, que nascem muitas vezes os novos caminhos. Utilizando uma expressão bem clichê e meio riporonga: o mais legal é se “despir de preconceitos” e ver o que cada música (ou artista) pode trazer de construtivo ou emocionante para a sua vida, seja ela feita por um cara cool como Nick Cave ou , no extremo oposto, por uma estrela do pop, como Kylie Minogue. Afinal, se até os dois astros autralianos de universos tão diferentes já toparam gravar juntos, por que seríamos nós, meros fãs mortais, que ousaríamos separar uniões tão belas e inusitadas como essa?