

Outro dia, estava almoçando no aprazível e levemente insosso restaurante natural perto da minha casa, quando, de repente, um som de saxofone começou a temperar de melodia o recinto. O repertório, composto por standards da música pop, assemelhava-se um pouco à programação da rádio Antena 1, criando um ambiente agradável — ou pelo menos, não incômodo — à clientela do lugar.
Apesar de conhecer e até gostar da maioria das músicas, fiquei questionando em minha mente aquela forma tão batida de “arte”: Por que essas músicas de bar e restaurante tendem a carecer tanto de estilo e de uma execução mais visceral? Como esse saxofonista, que me parece bom tecnicamente, poderia agregar valor e adicionar “sal” ao seu trabalho? Nesse sentido, passei a pensar nas minhas próprias carências musicais, conseqüências diretas das minhas escolhas desde a adolescência, que me fizeram me aproximar de alguns gêneros e deixar outros de lado. E, assim como eu, passei a notar que quase todos os meus colegas músicos e/ou amantes de música tinham também as suas opções bem definidas, o que, se sob certo ponto de vista, ajudavam a construir os seus estilos, sob outro, deixavam lacunas na sua musicalidade. No meio desses meus devaneios, tive uma idéia que me pareceu bem pertinente naquele momento: montar uma espécie de Clínica de Desintoxicação Musical.
E para que serviria exatamente essa clínica? Bem, a idéia é que o cliente que decida se internar — ou, ao menos, fazer uma consulta — seja avaliado por especialistas em Rock e Pop, que consigam detectar os seus vícios musicais, para, a partir dessa análise, receitar os remédios adequados para a superação da “doença”. No caso, os medicamentos seriam compostos por playlists de gêneros que esse amante da música nunca ouviu, seja por preconceito ou simplesmente por falta de oportunidade.
Para mostrar como funcionaria a clínica, vamos utilizar como primeiro exemplo o tal saxofonista que ouvi outro dia no restaurante natural. Ora, sua música, apesar de apresentar técnica, carece claramente de estilo e inventividade. Então, o que receitar para esse paciente? Bem, acredito que doses cavalares de Velvet Underground, Suicide, David Bowie e Roxy Music possam fazer muito bem a esse rapaz. Como ele parece gostar de música brasileira, colocaria no composto um pouco de Arnaldo Baptista fase Loki, de Walter Franco fase Revólver e até um punk rock sujo da seminal coletânea Começo do Fim do Mundo (Lixomania ou Olho Seco poderiam cair bem). O importante é mostrar que nem sempre a melodia é a única solução de uma composição: às vezes, precisamos de atitude e descompromisso com a técnica também.
Partamos para outro caso hipotético: o de um viciado em punk rock e sons mais pesados. De certa maneira, sua visão musical é antagônica à de um músico de bar: provavelmente esse paciente, se for músico, toca mal e acha que o discurso ideológico é o principal elemento de uma canção. Bem, ele precisa se desapegar dessa visão minimalista e de excessiva contestação. Desta forma, a receita para sua desintoxicação pode estar em aplicações diárias de Billy Joel, Paul McCartney e Elton John. Acredito que um Burt Bacharach e até um disco de rock progressivo (Yes ou King Crimson) possam fazê-lo bem. Numa última etapa, esse viciado em discursos ideológicos poderia ouvir a orquestra de Ray Conniff e a Orquestra Filarmônica de Berlim, regida por Herbert von Karajan, tocando a 6ª sinfonia de Beethoven.
Ok, Ok. Às vezes, o tratamento parece radical, mas, acreditem, tem grandes chances de fazer efeito. Vamos então a um terceiro caso, para tentar tornar mais clara essa minha revolucionária idéia: um músico de banda indie, com fortes influências shoegazer. Bem, esse paciente precisa urgentemente elevar a sua autoestima e masculinidade musical, não necessariamente nessa ordem. Nesse caso, é bom mantê-lo afastado de bandas como Belle & Sebastian, Cardigans e outras fofices. Em contrapartida, esse músico deverá ouvir, de preferência amarrado a uma camisa de força, grupos como Van Halen, AC/DC, Creedence Clearwater Revival e, numa última e talvez traumática etapa, ZZ Top. Para torná-lo desapegado de artes gráficas estilosas, seria interessante ainda apresentá-lo às capas horrorosas do Funkadelic.
O último caso trata de músicos virtuosos, que gostam de Stevie Vai, Michael Angelo e Paul Gilbert, mas que revelam alguma afinidade com o gênero brasileiro Chorinho também. Bom, para esses pacientes, um bom punk rock (para dar ideologia) e alguns conjuntos de reggae (para ensinar questões de ritmo e alma) podem fazer toda a diferença. O tratamento deve se iniciar com doses de The Clash e Peter Tosh, progredindo para Rancid, Aswad, Steel Pulse, e terminando com Asian Dub Foundation, Arctic Monkeys e talvez alguns Raggas.
De qualquer forma, essas são fórmulas generalistas, apresentadas somente para exemplificar o trabalho da futura clínica. Caso, ao ler esse texto, você identifique algum vício em sua formação musical, o recomendável é procurar um especialista que possa ajudá-lo a se desintoxicar. Não tente se automedicar, pois alguns quadros podem até se agravar com tal procedimento. Os especialistas da Clínica de Desintoxicação Musical estão de braços abertos para receber aqueles que desejam ampliar e até mesmo refinar seu gosto musical.