
Eu tenho um prazer meio sádico que preciso confessar para vocês. Na verdade, nem sei se é tão sádico assim: talvez esteja mais no ramo das esquisitisses ou, como preferem os psicólogos, idiossincrasias. Ou não. Num mundo tão populoso e moderno, onde as pessoas compartilham hábitos estranhos, como organizar flash mobs ou venerar (a novela mexicana camuflada de seriado norte-americano) Grey’s Anatomy, acho que meus prazeres nem são tão diferentes assim. Bom, preciso confessar-lhes antes que eu perca a coragem. Então lá vai: - Eu adoro assistir a shows de bandas péssimas.
Não sei quando essa mania começou: talvez ela venha da mais tenra idade. Só sei que um dia, já adulto, me toquei de que, simplesmente, estava obtendo quase o mesmo prazer ao assistir uma banda ótima ou outra péssima. A princípio, estranhei. Depois, relaxei e passei a me sentir como naquele antigo jogo da Lotto (ou Sena), em que você ganhava o prêmio se acertasse ou errasse feio todos os números sorteados. E, neste ponto, assim como na velha loteria, não existe meio termo no meu gosto musical: para curtir uma banda, ela tem que ser beeeem legal ou esdruxulamente p-é-s-s-i-m-a. Bandas boazinhas, esforçadas, com algum talento ou meio ruinzinhas não fazem mesmo a minha cabeça. Tem que estar em algum extremo da qualidade musical. Bem, acho que deu para entender, né?
A esta altura, acredito que já tenha gente me classificando como um fã inveterado de cultura trash. Mas acho que a história não é muito por aí, não. Vejam bem, eu não sou daqueles caras que colecionam filmes do Ed Wood, do Afonso Brazza ou do Zé do Caixão. Também não me vejo entre essa galera que curte o visual "zumbi" e som meio The Cramps e outras garageiras mais toscas. Meu lance é outro: eu saio de casa para ver bandas boas, mas, no meio de um festival, acabo assistindo sem querer a um grupo péssimo. Neste momento, passo a gostar tanto – ou, às vezes, mais - do conjunto ruim quanto do outro que fui ver. E aí, aquelas músicas horrorosas não me saem mais da cabeça. Começo a especular como os membros do grupo se juntaram, como surgiram as idéias e inspirações daquelas músicas péssimas e, enfim, como eles tiveram coragem de mostrar aquele resultado tão aquém do que consideramos razoável para o público. Neste ponto, ao invés de me enquadrar na galera trash, talvez sinta até mais sintonia com um cara como Frank Zappa, que gostava de músicas mais elaboradas, mas não pôde passar incólume à grandeza de um The Shaggs – classificado pelo guitarrista doidão como “melhor do que os Beatles”.
Mas o que teriam essas bandas ruins de tão interessante? Por que elas conseguem até arrebanhar - em casos raros, como o The Shaggs - uma legião de fãs? Acho que a grande chave desse mistério talvez esteja num conceito muito conhecido, mas pouco praticado entre os artistas: despretensão. Em alguns momentos, chega a ser um alívio assistir a uma banda na qual os componentes só querem se divertir, tocar para meia dúzia dos colegas de serviço ou impressionar suas namoradas. Mesmo que façam tudo, absolutamente tudo errado, às vezes aquela atitude despretensiosa “cheira a espírito juvenil”, como já disse um maluco lá das bandas de Seattle/Aberdeen. Além disso, muitas vezes os caminhos absurdos escolhidos por esses artistas acabam trazendo algo de inovador para o rock, algo que “a moral e os bons costumes da arte” não conseguem mais captar. O que quero dizer é que, contraditoriamente, às vezes as bandas péssimas carregam consigo o melhor do Rock’n’Roll.
PS: Infelizmente, para não gerar possíveis conflitos, protestos e embaraços, não poderei citar neste texto algumas bandas péssimas (ótimas) que já assisti. Só posso dizer que tem uma que começa com a letra “A”, que realmente era péssima. Também há outra, cujo nome se inicia com “O”, que também era incrivelmente ruim. E o que dizer daquela que se inicia com a letra “F”? Ah, são tantas...








