
Já notaram que algumas mensagens contidas nas letras de determinadas músicas se repetem em outras canções, de maneira levemente diferente? É como se fossem roteiros de filmes hollywoodianos ou novelas globais, nos quais a mesma história é recontada diversas vezes, só mudando os atores e os cenários. A princípio, essa repetição poderia gerar tédio no espectador, mas, como os seres humanos costumam compartilhar dos mesmos sentimentos e situações, tal redundância temática acaba se tornando até bem-vinda.
Um dos sentimentos que vejo se repetirem em canções é o expresso na música What a Wonderful World, de Louis Armstrong. Em linhas gerais, o que a letra diz é: todos sabemos que a vida tem suas mazelas, mas a beleza do mundo é maior do que isso. Essa mesma vibe é reproduzida, por exemplo, em músicas como Don’t Worry Be Happy, de Bob McFerrin, e Three Little Birds, de Bob Marley, além de tantas outras tantas cantadas ao redor do mundo.
No Brasil, uma das músicas que tenta recriar essa positividade é a intitulada O que é, o que é?, do cantor e compositor Gonzaguinha (1945-1991). Ela chegou a “bombar” nas paradas de sucesso no início dos anos 80, com um refrão grudento, que clamava “É a vida / É bonita / E é bonita”, sobre um ritmo de samba enredo. Mesmo criança, lembro de o seu autor, à época, comparecer a vários programas de TV, para interpretar a tal canção anunciada pelos apresentadores como super alto astral.
Essa música, no entanto, nunca conseguiu me trazer muita alegria. De alguma forma, sentia que, por trás daquele pretenso sambinha feliz, existia algo “dark”, como na famosa imagem em que, depois do show no picadeiro, o palhaço de circo aparece em seu camarim tirando a maquiagem e chorando. Pois bem, “O que é, o que é?” tem, para mim, esse clima de uma tristíssima música alegre.
Na realidade, se analisamos a letra de forma minuciosa, notamos indícios “depressivos” em vários trechos. Na primeira estrofe, Gonzaguinha já anuncia que não tem “vergonha de ser feliz”. E quem se sentiria embaraçado por isso, a não ser uma pessoa amargurada? Em seguida, se coloca na posição desconfortável e imutável de “eterno aprendiz” e ainda afirma que a vida “deveria ser bem melhor”.
Ao longo da letra, outros trechos vão entregando a visão niilista de Luiz Gonzaga Júnior em relação à vida, como no questionamento metafísico:“Ela é maravilha ou é SOFRIMENTO? Ela é alegria ou LAMENTO?”. Ou ainda na observação do autor, na qual se utiliza da terceira pessoa no feminino para afirmar: “Ela diz que o melhor é MORRER / Pois amada NÃO É / E o verbo SOFRER”. Ao contrário do que preconizavam os animados apresentadores de TV, o único momento alegre da música é o tal refrão “É bonita / É bonita / E é bonita” — mas isso parece muito pouco para torná-la alto astral. Para piorar a situação, a composição é em tom menor, o que costuma denotar uma certa melancolia harmônica.
A situação se torna ainda mais esquisita quando notamos que, em toda a obra de Gonzaguinha, não existe simplesmente nenhuma música “para cima”. O grande lance do autor era criar composições questionadoras e com forte engajamento político, que o fizeram ser reverenciado principalmente pelos militantes de esquerda nos anos 70. E, na verdade, basta olhar para a imagem de Luiz Gonzaga Júnior, com sua constante barba desgrenhada e cigarro na boca, para notar que seus versos nasciam de um coração amargurado, talvez pelos constantes conflitos com o seu ausente e rígido pai Gonzagão. Diante desse quadro, achar felicidade nas canções de Gonzaguinha parece tão difícil quanto encontrar motivação nas letras de Ian Curtis, vocalista “suicida” do Joy Division.
Com todas essas características, “O que é, O que é?” parece residir num ambiente diametralmente oposto a “What a Wonderful World”, como naquela relação de mundo real e bizarro dos desenhos do super-homem. Se, como foi dito no início do texto, a célebre canção de Louis Armstrong - com suas árvores verdes, rosas vermelhas, céu azul e cores do arco-íris – deixa as mazelas da vida de lado para celebrar a sua beleza, a mensagem de Gonzaguinha parece inverter todos os fatores e afirmar: “A vida é uma porcaria, mas tem até um ou outro evento aceitável, de vez em quando”.
Talvez para o bom observador, o paradoxo já esteja evidente na própria comparação dos títulos das músicas. Enquanto Armstrong exclama pura e simplesmente que o mundo é MARAVILHOSO, Gonzaguinha prefere colocar um ponto de interrogação no seu título, que se restringe a perguntar, de maneira vaga, “o que é?” duas vezes. Tenho certeza que, se num encontro improvável, a mesma música caísse nas mãos de Bob Marley ou Louis Armstrong, eles sugeririam a Gonzaguinha: — Por que você não troca pelo menos esse título para um lance mais astral, tipo “É Bonita (a Vida)”?. Obviamente, o filho rebelde de Luiz Gonzaga recusaria a sugestão.