
Uma colega de trabalho leu no jornal e veio me avisar, em tom de brincadeira, que hoje é o Dia do Homem. Não sei nem quero saber por que a data foi criada, pois já sinto um certo cheiro de forçação de barra no ar. De qualquer forma, o mote veio a calhar para um tema sobre o qual eu estava, coincidentemente, pensando ontem: o rock de macho.
A idéia veio depois de um dia de cão, em que encontrei conforto num rock pesado qualquer. Notei que a agressividade da música batia com a minha e a soma disso acabou tendo um efeito tranqüilizador sobre o meu humor. “Raiva é uma Energia”, já dizia John Lydon na música Rise, do PIL. Engraçado é que o Green Day parodiou o verso para “Violência é uma Energia” no seu mais recente single, “Know Your Enemy”. De certa forma, os homens precisam de alguma dose de agressividade no seu dia-a-dia para a construção da sua própria calma. É por isso que inventaram o boxe, o futebol, a corrida de automóveis e, em última instância, o porradobol, símbolo máximo dos jogos (ou lutas) masculinos.
Agressividade tem tudo a ver com rock de macho, embora não seja a única variável que conta. Às vezes, um blues calmo do Almann Brothers ou do ZZ Top pode carregar muito mais macheza do que uma música barulhenta do Prodigy. Rock macho é, sei lá, um tipo de postura. A macheza está no ar, de forma sutil (palavra não muito presente no vocabulário masculino), e nem sempre é fácil de ser explicada e, principalmente, captada pelas mulheres. Mas o fato é que todo mundo sabe que, se rolar uma porrada entre a galera do ZZ Top e do Belle and Sebastian, quem ganha não são os "fofos" escoceses.
E quem seriam os maiores ícones do rock macho? De cabeça, eu lembro de AC/DC, Van Halen, Black Sabbath, Lynyrd Skynyrd e o maior de todos, ZZ Top. No Brasil, Camisa de Vênus é imbatível, seguido pelos pupilos do Matanza.
Deixa eu dar um exemplo como funciona esse lance de rock de macho. Há alguns anos, eu estava vendo um show do AC/DC na TV e, em determinado momento, o palco se abria para a entrada de alguns...CANHÕES. Sim, CANHÕES. Neste instante, as câmeras flagraram o delírio do público e ficou claro que 99% ali eram homens. As poucas mulheres presentes estavam nos ombros de seus namorados ou, se estavam sozinhas, tiveram que fingir achar legal a presença do material bélico no palco. Mas o fato é que a entrada de canhões era, claramente, uma mensagem quase criptografada de homem para homem.
O mesmo princípio de sociedade secreta masculina pode ser utilizado nos clipes de carros e mulheres de biquíni do ZZ Top, muito apreciado somente por homens, ou no grito animado e a plenos pulmões de “Piraaaaaaaanha”, por garotos nas pistas de dança, para completar o “Oh, Sílvia”, cantado pelo Camisa de Vênus. Ou seja, isso é macheza em seu estado mais puro: um mundo impenetrável para as mulheres. Aliás, já vi muita mulher dizendo que achava o Marcelo Nova nojento. E a resposta talvez seja: ele fala um outro idioma, incompreensível para as moças.
A propósito, ultimamente anda na moda as garotas dizerem que gostavam de brincar com os homens na infância, pois achavam a brincadeira com bonecas tediosa. Tenho a impressão que a maioria dessas mulheres modernas ficou decepcionada na adolescência, quando, ao primeiro acorde de um rock pesado, começou a ver seus amigos baterem cabeça que nem uns idiotas. E o que dizer então do primeiro convite para jogar porradobol?