

Ontem (24/11), lendo a revista Megazine, do jornal O Globo, deparei-me com uma pequena nota que me incomodou bastante. O textinho, publicado na coluna Liquidificador, de André Miranda e Télio Navega, dizia assim: A revista britânica New Musical Express fez uma lista dos melhores discos da década. Deu Strokes na cabeça, com This is it (sic). Nada contra o grupo de Julian Casablancas. Mas e o White Stripes? E o Arcade Fire? Esses, sim, tiveram relevância na década.
Cá com meus botões, não acho correto ser determinista nessas questões de gosto ou julgamento de qualidade artística. Mas, por outro lado, precisamos de certos parâmetros para nos guiar e, neste ponto, vale recorrer à objetividade de dados e fatos históricos. Diante disso, considero que os jornalistas que redigiram a nota cometeram um erro crasso ao contestar a votação da NME. Ora, se existe um disco relevante na virada do milênio, que ditou grande parte do que seria feito dali em diante por toda uma geração, esse álbum se chama justamente Is this it. Que o digam Franz Ferdinand, Arctic Monkeys, Libertines e tantos outros grupos que apareceram nos últimos anos, alguns deles começando a partir de covers ou incentivados por shows da banda novaiorquina. Is this it, portanto, se tornou a matriz de uma geração e, como disse muito bem um amigo meu, pode ser considerado o Nevermind dos 00’s, guardadas as devidas proporções.
Diante de tamanha influência e relevância do álbum de estréia dos Strokes, não há chance nesssa corrida para White Stripes e muito menos para Arcade Fire. OK, a banda de Jack White lançou grandes discos ao longo dos últimos anos e construiu uma carreira talvez até mais sólida do que a dos amigos de Nova York. Mas, como álbum, Is this it continua sendo o mais importante da década, de forma quase incontestável. Quanto à colocação sobre o Arcade Fire, sinceramente essa nem vale muitos comentários. Tudo bem, o grupo canadense é simpático e compõe boas canções, mas comparar qualquer lançamento feito por eles com o primeiro disco do Strokes é não demonstrar muita noção da (recente) história do rock. Ou seja, os jornalistas do O Globo, ao criticarem a publicação inglesa NME, provavelmente baseados em seus gostos pessoais, acabaram escorregando feio no quiabo.
Por falar na revista Megazine, outro dia me deparei com um equívoco até meio engraçado na mesma publicação – se não me engano, na coluna Qual é a boa?, escrita por William Helal Filho. A nota falava sobre um show do Capital Inicial que aconteceria na cidade do Rio de Janeiro naquela semana — foi, portanto, antes do acidente do vocalista Dinho. Em determinado trecho da nota, o jornalista resolveu utilizar um sinônimo para Capital Inicial e acabou usando o termo “a banda dos irmãos Ouro Preto”. Bem, quem conhece o mínimo da trajetória da banda de Brasília, sabe que o Capital é formado pelos irmãos Lemos (Flávio, no baixo, e Fê, na bateria). O vocalista Dinho tem até um irmão que já se envolveu com música, chamado Ico, o qual integrou brevemente a Legião Urbana, mas este não deve mexer com música há pelo menos vinte anos.
Diante desse quadro, a minha recomendação para o editor da revista Megazine, do jornal O Globo, é que dê um bom puxão de orelhas nos seus jornalistas musicais. Se continuarem assim, merecem ganhar de presente o troféu abacaxi da imprensa musical ou, sei lá, alguns meses de castigo na cobertura policial.