terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O rock futurista da Divine


Logo que comecei a escrever este blog, em meados de 2009, postei um texto apontando o disco Órfãos da Nação, da banda crossover BSB-H, como elo entre o rock brasiliense dos anos 80 e 90. No final daquela postagem, revelava que, para mim, a ponte entre as gerações brasilienses seguintes (90's e 00's) era a banda Divine. Este texto, portanto, vem pagar a dívida deixada com os leitores.

Surgido em 1992, com o nome de Ultraviolet, o grupo começou a partir de uma colaboração de músicos das bandas OZ e Low Dream com o, à época, estudante de História e editor do fanzine Heaven Cláudio Bull. Depois de um episódio que se tornou uma espécie de “clássico” da cena independente brasiliense, em que os músicos foram assaltados dentro de um estúdio na Asa Norte, a banda deu uma parada e acabou só tomando corpo mesmo em 1993, já com integrantes “próprios”: o baterista Marcius Fabiani, o baixista Daniel Luna e os irmãos guitarristas Wilton e Wagner Rossi (este último trocaria a guitarra pelo baixo posteriormente), além do vocalista e letrista Cláudio Bull. A mudança na formação também trouxe um novo nome: agora, o grupo se chamava Divine’s Men (depois, passou a ser somente Divine) numa referência ao ator norte americano Harris Milstead (1945-1988), mais conhecido por sua persona drag queen Divine.

Foi mais ou menos em 1993 que eu conheci o vocalista Cláudio Bull. Cursávamos – também com o baterista Marcius Fabiani - a disciplina Estética e Cultura de Massa, na Faculdade de Comunicação da UnB, e começamos a trocar algumas idéias sobre música. Já nas primeiras conversas deu para sacar que o Cláudio conhecia muita coisa tanto dos clássicos quanto das últimas novidades do rock e do pop. Como ele era um pouco mais velho e sempre teve a verve de colecionador de discos e revistas, sua casa acabou se tornando ponto de encontro de muitas gerações de roqueiros brasilienses para se escutar e falar sobre música.

Muito do que se encontra no som e na postura da Divine está ligado a essa visão ampla da cena musical do líder Cláudio Bull, derivada do seu lado fanzineiro e historiador. Neste ponto, é interessante notar como a banda sempre lutou pela construção de uma cena local, seja organizando shows e festivais ou mesmo trocando informações com grupos de outros estados. Paradoxalmente a essa noção de coletivo, a própria carreira da Divine acabou sendo construída de uma maneira quase solitária (inclusive, no que diz respeito à formação de um público), sem se associar exatamente a nenhum grupo ou estilo.

Logo que a Divine lançou sua primeira demotape (Portfolio), em 1994, lembro de o Cláudio Bull rejeitar veementemente os conceitos de “brodagem” e “podreira”, tão em voga no rock brasileiro dos anos 90. Ao mesmo tempo, a banda que começou com a colaboração de membros dos Oz e Low Dream também deixou logo para trás o lado estrangeirista das guitar bands para escrever letras em português e tratar de temas como sincretismo religioso e sexualidade, com diversas referências à cultura brasileira. Na segunda metade da década de 90, quando diversos músicos da cena alternativa brasilienses resolveram trocar as guitarras pelas picapes, a Divine buscou mesclar as linguagens roqueira e eletrônica em uma terceira via. Essa fusão sonora está bem explícita no primeiro disco da banda, homônimo, lançado em 98, que conta com a produção do mineiro Paulo Beto, oriundo da escola eletrônica.

Na própria construção das canções, a Divine – cuja formação clássica, a partir do final de 1997, contava com Cláudio Bull (vocal e letras), Wilton Rossi (guitarra), Zeca (baixo) e Thiago Bouza (bateria) - também tinha um estilo bem peculiar de compor: enquanto o guitarrista canhoto Wilton Rossi usava seu background roqueiro para misturar riffs setentistas com dedilhados oitentistas, o vocalista Cláudio Bull encaixava suas letras de cunho literário, histórico e antropológico – frutos de uma forte influência de Caetano Veloso, Fellini, David Bowie e krautrock – dentro de melodias quase cerebrais. Somando a esse núcleo, entrava a bateria quebrada, esporrenta e visceral de Thiago Bouza e o baixo pulsante de Zeca (ex-Animais dos Espelhos e Câmbio Negro). Em sua última formação, a banda ainda contou com o teclado de Gustavo Cochlar (ex-Chantilly e também DJ). Se a falta de uma educação musical mais formal fazia o próprio vocal de Bull fugir algumas vezes do tom, essa espécie de carência parecia suplantada pela força das canções e a coesão da banda.

A permanência do Divine – e seu estilo meio indefinido, com toques de glam rock, punk, eletrônica e indie rock – na cena roqueira até 2002, ano de sua dissolução, fez com que a banda se tornasse uma espécie de ponte entre o rock brasiliense dos anos 90 e 2000. Se olhamos para o final da década de 90 em Brasília, o que se vê é um cenário roqueiro repleto de bandas de hardcore ou buscando um regionalismo forçado (para imitar Raimundos e Chico Science), com os músicos indies migrando para a música eletrônica. A Divine, apesar de conservar parte da linguagem indie dos 90’s, já trazia muito da informação que nos anos 2000 seria bem mais comum: um rock urbano e moderno com sotaque brasileiro, sem precisar recorrer a misturebas sonoras ou regionalismos, sem rivalizar ou se entregar para a música eletrônica.

Por conta dessa admiração e amizade com o Cláudio e os demais membros da Divine, tive a oportunidade de produzir – não muito bem, por sinal – uma demo da banda em 1995 (¡Los Chicos No Quiziéron!). Além disso, cheguei a regravar duas músicas deles com o Prot(o): Spacepop 2, na demo “Prot(o) ao Vivo”, quando este ainda era um projeto solo, em 1997, e A Rainha das Garotas Más, no segundo disco do Prot(o), já como banda, em 2006. Além disso, nós, do Prot(o), dividimos com a Divine vários shows e até uma mini turnê em São Paulo, em 2000 (que ainda contou com os goianos MQN e Motherfish). O que sempre imperou na relação das duas bandas foi um senso de respeito e cooperação.

Com o fim da Divine, a dupla Cláudio e Wilton, acompanhada pelo produtor, tecladista e cineasta Zepedro Gollo, montou um outro projeto, chamado Superquadra, cujas letras misturam um olhar contemplativo com visões ácidas sobre a arquitetura e o estilo de vida dos brasilienses. Com um pé ainda mais fincado em bases eletrônicas e espaciais, menos peso nas guitarras e uma batida mais cadenciada, o Superquadra acabou levando à frente – e até evoluindo em alguns sentidos - muito da sonoridade legada pela Divine. Em 2006, o Superquadra lançou o seu primeiro disco, Tropicalismo Minimal, eleito o melhor álbum brasileiro de rock e pop daquele ano pelo jornal Correio Braziliense. Longe de significar apenas a valorização ao momento inspirado do Superquadra, o alto do pódio na eleição do Correio veio valorizar o trabalho de mais de uma década de um grupo de músicos que, apoiado em diversas referencias do passado, sempre apostou no futuro.

Discografia (com links para baixar as gravações)

1994 - "Portfolio" - Divine's Men
1995 - "Spacepop 2" (Apenas com a música "Spacepop 2")
1995 - "¡Los chicos no quisiéron!"
1996 - "Go-go!"
1997 - "Now working!"
1997 - "lo-fi"
1997 - Participação na coletânea "Cult 22" (música "Adeptus", outtake do CD)
1997 - "Batum-hum!" (demo com a versão jungle de "Batum", que sairia no CD)
1998 - CD "Divine"
1998 - Participação na coletânea "Different Songs" (músicas "Brasília", "Lar católico" e "Alice", extraídas das demos "lo-fi" e "Now working!")
2000 - "Souvenir" - (compacto vinil lançado pela Monstro Discos)
2001 - "Panorama"

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Marley & Eu


Neste último sábado (6/2), o cantor e compositor Bob Marley faria 65 anos, se estivesse vivo. Seu aniversário foi comemorado em todo o mundo e, no Brasil, um dos grandes redutos de culto ao reggae, não poderia ser diferente: diversos jornais e sites publicaram matérias e emissoras de TV transmitiram programas sobre o grande ídolo jamaicano. Eu, que geralmente costumo lembrar da data, esqueci este ano e fui recordado pelo documentário Bob Marley – Freedom Road, exibido no canal de TV por assinatura Multishow, à tarde.

Conheci a música de Bob Marley em 1990, dos 15 para os 16 anos, quando um grande amigo do colégio gravou para mim uma fita cassete de 60 minutos, contendo, de um lado, a coletânea "Who’s Better, Who’s Best”, do The Who, e, do outro, os grandes sucessos do rei do reggae: No Woman No Cry, Is This Love, Redemption Song, Three Little Birds, Stir it Up, entre outras. Como meu background era 99% roqueiro, esse contato inicial com o reggae não chegou a se figurar como amor à primeira vista, mas, à medida em que o tempo passava, fui sacando mais e mais a grandeza do material que tinha em mãos. Fui ficando, então, cada vez mais interessado – de certa forma, viciado - em reggae: além de buscar sons e informações sobre o estilo, deixei o cabelo crescer e comecei a usar pulseirinhas coloridas e até um colar meio riporonga.

Foi exatamente nessa época que fiquei amigo do pessoal do Cravo Rastafari, banda formada na Escola Americana de Brasília, que se dedicava a tocar clássicos do reggae e, principalmente, Bob Marley. Conheci os caras pelo Txotxa (baterista do Cravo e atualmente na Plebe Rude), que estudava comigo no Marista e já tinha o hábito de tocar em várias bandas ao mesmo tempo – nós participávamos de grupo chamado Aspargos. O Cravo virou, imediatamente, a minha “banda de colégio” preferida. Passei a acompanhar os shows deles e fiquei bastante feliz quando, no ano seguinte (1991), fui convidado para integrar a banda, pois o guitarrista e vocalista Marcus Navarretti tinha ido estudar fora da cidade.

O Cravo Rastafari - que em 1993, depois de algumas mudanças na formação e no som, veio a se tornar o Maskavo Roots - acabou sendo uma grande escola musical para mim: como se tratava de uma banda cover (principalmente de Bob Marley), tínhamos que nos ater somente à entender e tocar da melhor forma possível os arranjos das canções. E, neste ponto, as canções de Bob Marley nos ensinaram o que há de melhor na música pop: são simples harmonicamente, mas ao mesmo tempo ricas em melodia e com ótimas sacadas de arranjo; são pops e com refrões grudentos, mas nem por isso vazias (pelo contrário, a sua marca é a espiritualidade).

Uma vez assisti num programa de TV o rapper Marcelo D2 expressando uma opinião da qual compartilho: Bob Marley não tem músicas ruins. Você pode até não gostar de uma ou outra, mas todas as canções do rei do reggae são bem elaboradas, possuem seu valor tanto como música quanto como mensagem. Neste sábado, assistindo ao documentário exibido no Multishow, fiquei pensando como Bob Marley sempre tinha o que falar: a impressão que fica é que não há um verso enxertado ou enrolado para fechar a métrica da letra. Além disso, as imagens utilizadas para expressar as suas opiniões são absolutamente fantásticas, de uma beleza poética de dar inveja a qualquer literato.

Talvez por conta dessa carga de espiritualidade, desse “sempre ter o que dizer”, Bob Marley é reverenciado quase como uma divindade por seus seguidores – embora o culto excessivo por “rastas louros classe média” seja, muitas vezes, um pé no saco. E, no mundo do reggae, é interessante como Bob Marley é absoluto. Isto é, você pode até gostar de Peter Tosh, Max Romeo, Burning Spear, Bunny Wailer, Lee Perry ou outro grande artista do gênero, mas todos sabem que Bob Marley está em um ou dois degraus acima dos demais.

Uma das imagens fortes que tenho da música de Bob Marley tem a ver com uma fase física e mental meio frágil na minha vida, na qual, por conta de um rompimento no menisco (cartilagem do joelho), minha perna ficou algum tempo fora do lugar. Depois de ortopedista ao qual consultei me dizer que a coisa só se ajeitaria na mesa de cirurgia, consegui reencaixar a perna e o joelho numa bela tarde, ouvindo Bob Marley no meu quarto. Durante algum tempo, atribui o “milagre” ao efeito terapeutico da música do rei do reggae. Embora, hoje, duvide um pouco dessa teoria mística que eu mesmo criei, ainda desconfio que a música de Bob Marley traga algo maior, em termos espirituais, do que sonha a nossa vã filosofia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A MPB e seus discos com timbres horripilantes nos anos 80














Um pouco antes do Natal, dei-me de presente o conserto da vitrola aqui de casa. Já estava sem ouvir discos de vinil há um punhado de anos, pois meu antigo som simplesmente enferrujou todo por dentro e o “novo” – comprado de segunda-mão pela minha amada companheira – quebrou uma semana depois de conhecer seu novo lar. Após uns dois anos de enrolação, resolvi botar a mão na massa – quer dizer, no bolso – e levá-lo a uma oficina de eletrônicos no final da Asa Sul, a qual, cumprindo os mandamentos da “Lei de Gerson”, acabou cobrando um preço alto por um serviço aparentemente simples.

Resolvida a novela do conserto da radiola, fui voltando tímida e lentamente a ter contato com os meus discos de vinil. Neste ponto, vale explicar que não sou daqueles fetichistas que idolatram os bolachões-de-sei-lá-quantos gramas, por possuírem mais graves e a capa grande de 31cm x 31cm, coisa e tal. Pelo contrário, tenho uma certa desconfiança em relação a esses puristas e chego a apostar que 50% das pessoas que sustentam tal discurso não sabem nem o que estão dizendo - simplesmente, voltaram a ouvir vinil porque é moda. E, aliás, cá entre nós, tem coisa mais chata do que ficar mudando o lado do disco a cada 27 minutos? Se existe uma revolução, ela se chama MP3, na minha humilde e contestatória opinião.

(Tá, mas vamos deixar meus dramas de lado para começar a porcaria dessa postagem. Aliás, já notaram o meu enorme ‘talento’ para nunca ser direto? O que era para ser uma abertura simples de texto acaba se tornando quase que uma descrição de personagem do livro ‘O Guarani’, de José de Alencar. Poxa, como todos já leram no título, essa postagem se presta a falar dos timbres horripilantes da MPB nos anos 80, mas, simplesmente, não consigo entrar no tema...)

O fato é que voltei a ouvir meus LPs. Modéstia à parte, devo confessar que, se o meu acervo é mediano do ponto de vista quantitativo, no lado qualitativo o considero razoavelmente rico. Nele, pode-se encontrar, por exemplo, um 3 Feet High and Rising, do De La Soul, ao lado de Please to Meet Me, do Replacements; ou um Extra Texture, de George Harrison entre vários do Led Zeppelin e do The Clash; Doolittle, do Pixies, está encostado no New Tradicionalists, do Devo, que, por sua vez, faz fronteira com What’s Going On, de Marvin Gaye, seguido por High Energy Plan, do 999, e por aí vai. Saindo da praia estritamente roqueira, há também diversos bolachões legais de música brasileira - alguns comprados e outros herdados de parentes - que vão de Lupicínio Rodrigues a João Bosco; do maestro soberano da bossa nova Tom Jobim aos tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil; do samba rock de Jorge Ben às crônicas urbanas de Noel Rosa e de seu discípulo Chico Buarque, entre outros.

Nessas minhas empreitadas pelo terreno fértil da MPB, além do imenso talento de nossos compositores, pude reparar uma característica não muito positiva na indústria fonográfica nacional: os timbres horrorosos dos discos gravados nos anos 80. Essa percepção, já existente desde a minha adolescência, tomou uma dimensão maior e mais amadurecida a partir da audição, há alguns dias, do álbum Luar (A gente precisa ver o luar), lançado em 1981 pelo compositor baiano Gilberto Gil e que marca o início de sua parceria com o produtor Liminha. À medida que o long play rodopiava na vitrola, ficava estarrecido como a caixa de bateria soava magra, como os instrumentos e a voz “brilhavam” mais do que o necessário, como a presença dos sintetizadores (tocados pelo bam-bam-bam Lincoln Olivetti!) era exagerada e como, enfim, a escolha equivocada dos sons de grande parte dos instrumentos ajudava a esconder a qualidade daquelas composições.

A partir daí, comecei a lembrar de faixas gravadas por artistas da MPB na década de 1980 que possuíam “desvios de conduta” muito parecidos com os apresentados no disco Luar. Vieram-me à cabeça timbres tenebrosos, como os do roquinho magro Punk da Periferia (do disco Extra, de 1983), de Gilberto Gil, uma espécie de afronta ao estilo criado por Chuck Berry & Cia, que não se salva nem com a participação do talentoso Lulu Santos nas guitarras. E o que dizer de Eclipse Oculto (Uns, de 1983) e Podres Poderes (Velô, de 1984), de Caetano Veloso, que poderiam servir de matéria-prima para uma aula do curso de produção musical – neste caso, de como nunca se gravar um disco - na renomada faculdade de Berklee, nos Estados Unidos? A música Lilás (do disco homônimo, de 1984), de Djavan, mesmo que gravada no exterior com músicos brasileiros e estrangeiros de primeira linha, é outra a chamar a atenção pelos teclados de gosto bastante duvidoso.

Neste momento, uma pessoa mais ligada em estilo poderia me dizer que os pedais de guitarra Flanger, Chorus e Phaser, os sintetizadores, as caixas de bateria mais magras, os baixos estalados e os famigerados solos de sax alto são produtos típicos dos anos 80, seja no Brasil ou no exterior. Portanto, essa estética encontrada nas músicas dos artistas de MPB só estava sintonizada com uma tendência mundial. De fato, isso explica muita coisa, mas não tudo. Na minha opinião, a questão é que, nos discos de MPB, essa fórmula foi, digamos, mais mal aplicada do que no resto do mundo – ou, sendo mais específico, nos EUA e na Inglaterra. Isso porque, por mais que os nossos músicos tenham incorporado a guitarra à música brasileira (desde a Jovem Guarda, passando por Mutantes e Novos Baianos), a tradição da dita MPB é quase que exclusivamente baseada no esquema voz e violão de cordas de nylon. Prova disso é a veneração dos tropicalistas pelo “gênio indomável” da bossa nova João Gilberto.

Ao ouvirmos os discos de música brasileira dos anos 70, notamos que, apesar de a estrutura de estúdio ser claramente mais modesta, os timbres e arranjos parecem ter mais estilo e ser, de certa forma, mais compatíveis com o “swing” - essa palavra é muito escro** - da nossa MPB: baixos graves, baterias “cheias”, etc. Tudo bem que rola uma ou outra coisa miserável, tipo o timbre da guitarra do solinho de Réu Confesso, de Tim Maia (pedal Fuzz ligado diretamente na mesa de som, que, de tão esquisito, virou cult), mas, em geral, o resultado em matéria de timbre nos anos 70 parece ser mais adequado e ter mais personalidade do que o da década seguinte. Basta ouvir discos legais, como Expresso 2222, de Gilberto Gil (1972), Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974) e Cinema Transcedental, de Caetano Veloso (1979), para concretizar essa visão.

O problema é que, na virada para os anos 80, o crescimento da pop music e do rock parece ter influenciado nossos compositores a caminharem rumo ao que era considerado moderno à época. Vem daí a busca pela sonoridade mais eletro-eletrônica e a batida mais reta. No entanto, como os artistas não tinham tanto conhecimento desse tipo de som e suas próprias composições se originavam de um lado mais acústico e ritmado, os resultados ficaram meio artificiais. Afinal, existe algo mais contraditório do que Caetano Veloso tocando violão ovation de nylon no videoclipe do pseudo-rock Podres Poderes? Neste ponto, nem a produção de feras como Liminha (e seu assistente de produção à época Chico Neves) nos discos de Gil, e do norte-americano Erich Bulling, no disco Lilás, de Djavan, conseguiu ajudar nossos artistas a terem um resultado sonoro mais aceitável.

O disco Estrangeiro, lançado por Caetano Veloso simbolicamente no fim da década de 1980 (precisamente, em 1989), trouxe novos ares para a produção musical brasileira. Capitaneado pelos norte-americanos Peter Scherer e Arto Lindsay (este último criado em Pernambuco), membros da banda experimental Ambitious Lovers, o disco muda completamente a forma de tratar os timbres e a execução dos instrumentos: o pop rock passa a dar lugar a algo mais cerebral; os solos dos instrumentos são trocados por execuções mais sóbrias, contidas; os próprios timbres perdem o excesso de brilho e passam a ser mais secos. Apesar de soar meio chato e cabeçóide na maioria do tempo, Estrangeiro traz de volta para os trilhos uma personalidade que havia se perdido desde a década de 70.

De qualquer forma, não se pode negar que os anos 80 foram um período rico em matéria de composições e da própria exposição dos artistas da MPB. Mercadologicamente falando, foi a década que deu estabilidade à carreira desses músicos. É uma pena que os timbres não estejam exatamente à altura das canções.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A encruzilhada dos 'Guidis'


A banda gaúcha Superguidis lançou nesta semana um single, composto por três músicas, que abre as portas para a chegada do seu terceiro disco, em março, pela gravadora Senhor F. Já tinha escutado algumas das novas canções nos shows que eles fizeram em Brasília no ano passado, mas não havia conseguido “interiorizá-las” ainda. Geralmente, preciso de mais de uma audição, de preferência no aconchego do meu lar, para sacar o que uma composição oferece aos meus ouvidos (que frescura, né?).

O fato é que os Superguidis são uma banda suficientemente relevante para que a chegada de um disco gere uma certa expectativa e seja fruto de comentários entre seus admiradores (nos quais me incluo), principalmente aqui em Brasília, espécie de segunda casa dos gaúchos de Guaíba. Dona de dois ótimos discos (com destaque para o primeiro) e de shows arrasadores, a banda conta com uma dupla de compositores-guitarristas inspirados, uma cozinha pra lá de competente e um vocalista com afinação e timbre foras de série.

Pela amostra que ouvi nos shows e do que saquei agora pelo single, está clara a intenção de dar novos rumos ao som e chacoalhar um pouco a fórmula “cozinha reta e guitarras entrelaçadas influenciadas por Guided by Voices e Pavement”, que orientou os dois primeiros álbuns da banda. Agora, as referências parecem mais amplas, englobando desde canções levadas ao violão até um lado mais esporrento do grunge (talvez a maior influência do vocalista/compositor Andrio Maquenzi).

O single é composto de duas músicas inéditas – “Não Fosse o Bom Humor” e “Visão Além do Alcance” – e uma versão acústica de “Malevolosidade”, hit do primeiro disco da banda. Se em uma primeira escutada, as canções inéditas parecem não se diferenciar tanto assim das músicas dos discos anteriores, mais atentamente pode-se obter pistas significativas para algumas mudanças no som da banda.

Não Fosse o Bom Humor”, num antagonismo com o título, parece trazer uma letra mais séria, deixando para trás a ironia juvenil e pra cima dos álbuns anteriores. O som também parece mais direto, num jogo de guitarras um pouco menos torto a la Stephen Malkmus e mais “superfuzz bigmuff”. Os riffs espertos, certeiros e pegajosos, tão característicos dos Guidis, continuam lá guiando a música, mas um pouco menos na cara.

Já “Visão Além do Alcance” traz o lado baladeiro já revelado em canções dos álbuns anteriores, como “O Banana” e “6 Anos”. A música se inicia com um bordão puxado de guitarra, numa afinação que parece ser na nota (em vez do tradicional Mi) – para quem não conhece, vale explicar: a banda é “mestra” em mudar afinações – e os instrumentos entram em seguida, compondo o tradicional entrelace sonoro dos Guidis. Um ataque de toda a banda anuncia a estrofe, que é cantada sobre uma base meio “solta”. O chão da música volta entre as estrofes e se reforça no refrão. Quando se acha que pegou a música, ela nos surpreende com a entrada de cordas onde normalmente seria o solo de guitarra.

A versão acústica de “Malevolosidade” vem para provar a popularidade da banda no underground: a partir da segunda estrofe, quem canta é a platéia, que leva a música até o fim. Aficcionados por música independente que são, os Superguidis recorrem à escola indie para manter de forma criativa e irreverente na mesma faixa tanto os aplausos e a conversa com o público quanto uma segunda versão da música, desta vez cantada de cabo a rabo pelo vocalista Andrio.

De fato, os Superguidis conseguem unir qualidade e (potencial de) popularidade, algo raro no rock brasileiro atual. No entanto, o que parece ser o melhor dos mundos à primeira vista, acaba colocando a banda numa encruzilhada. O problema é que talvez eles precisem ampliar o seu público para se profissionalizarem (no sentido financeiro e prático da coisa). Bala na agulha e carisma para isso o grupo tem de sobra, mas talvez precise fazer certas concessões para penetrar no duro jogo do mercado musical.

Por outro lado, podem negar a crueza do mercado e se fixar somente na música. Mas, caindo na realidade, até quando uma banda consegue se manter junta sem retorno financeiro? Ainda mais jovens como são, a tendência é que as futuras profissões ditem os rumos de suas vidas, caso deixem a música somente como hobby.

Obviamente, há uma terceira via, mais equilibrada talvez, que faz com que uma banda “vença” pela consolidação de sua obra. Então, o que restaria seria ter paciência, tranqüilidade e ir lançando os discos de forma despretensiosa até que a coisa tome pernas. Mas, sinceramente, acho que isso quase tão raro e imprevisível quanto ganhar na loteria. Até porque uma banda é composta por vários membros (os Guidis são quatro), que tendem a mudar seus desejos e necessidades ao longo dos anos.

Ainda não ouvi o terceiro disco inteiro do Superguidis e não sei para que lado, ao certo, apontam as mudanças que senti no single. Estarão eles mais pops ou mais herméticos? Mais sérios ou conservarão um pouco da sua ironia juvenil? E de onde viria exatamente essa mudança: de uma necessidade interior ou de algo mais direcionado para o mercado? Pelo que conheço dos caras, sempre me chamou a atenção em seus perfis apenas uma boa e salutar ambição artística – nunca financeira ou mercadológica. Por outro lado, o verso que fecha, de forma meio melancólica, a música “Visão Além do Alcance” talvez entregue um pouco do dilema vivido pela banda neste momento: “Com tanto artifício assim, é difícil ser você mesmo”.

Do meu lado, torço para que os Superguidis continuem sendo eles mesmos - embora saiba que a batalha seja dura.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O “verdadeiro” espírito do rock


Quando ainda fazia terapia, há cerca de um ano, numa das tresloucadas e, às vezes, existenciais conversas com meu psicólogo, fui questionado sobre o que simbolizava o rock para mim. Depois de uma breve vasculhada na mente, respondi que o verdadeiro espírito do rock estava associado a uma imagem que assistira naquela semana: dois adolescentes atravessando a pé, à tarde, o Eixão - gigantesca avenida de Brasília - conversando e carregando nas costas seus instrumentos musicais.

A minha explicação para a relevância daquela cena estava ligada à pureza que ela transmitia para mim: aqueles garotos pareciam estar descobrindo a música, tocando por prazer, sem que a banda lhes desse algo em troca; na sua rotina juvenil, tinham tempo livre para conversar (sobre música e outros assuntos) e o rock, provavelmente, seria apenas um meio para celebrar a sua amizade. É obvio que, sem conhecer aqueles adolescentes, muitos daqueles sentimentos seriam apenas frutos de uma projeção da minha parte. Mas, sem querer bancar o Freud, acho que a imagem vista por mim simboliza uma relação pura pela qual a maioria dos músicos já passou.

Devo confessar que sinto uma certa emoção quando leio histórias sobre os primeiros encontros dos membros de bandas de rock consagradas e/ou que gosto. Para mim, é como se esses momentos carregassem consigo o verdadeiro espírito do rock – se é que essa “entidade” existe. Acho legal saber, por exemplo, que, por trás de uma carreira regada a excessos dos bad boys Rolling Stones, existe um singelo encontro entre os jovens Keith Richards e Mick Jagger em uma estação de trem em Dartford, a caminho de Londres. Reza a lenda que Richards teria avistado o ex-colega de jardim de infância, Jagger, carregando discos de blues debaixo do braço, o que teria motivado o guitarrista a abordar o futuro vocalista de sua banda.

Assim com o primeiro encontro dos compositores dos Stones, existem muitas outras belas histórias no rock, como a do dia em que Paul McCartney impressionou John Lennon, ao tocar na guitarra a música Twenty Flight Rock, de Eddie Cochran, ganhando seu passaporte para integrar a banda de colégio The Quarrymen, espécie de embrião dos Beatles. Ou, trazendo para uma realidade brasileira e mais atual, é legal notar que os membros dos aclamados Los Hermanos começaram a banda despretensiosamente a partir de uma amizade surgida nos corredores da PUC, no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, ou que os brasilienses do Bois de Gerião, ainda garotos, se juntavam para tocar ska e punk rock na sobreloja de uma locadora de vídeo, na 308 sul.

Por mais que cresça e ganhe fama, dinheiro e mulheres, muito da essência que uma banda carrega vem desses primeiros encontros. De certa forma, conhecer a fase de germinação de um grupo é quase como ter acesso ao seu DNA: lá estão as referências musicais mais profundas e as relações pessoais mais honestas e verdadeiras entre os membros. E, mesmo havendo outros momentos grandiosos e criativos ao longo da carreira, é naquele início onde estão as células-tronco capazes de salvar a música dessas bandas em momentos de enfermidade (causadas, na maior parte, pelo ludibriante mundo do showbizz).

Não quero, com isso, fazer uma ode à ingenuidade ou à alienação, tão comuns à juventude. Na verdade, sei que muitas das grandes conquistas da vida vêm com a maturidade, com o progressivo movimento de conhecer a si mesmo. E admito que, quanto mais avanço na idade, mais admiro obras feitas por artistas maduros, que trocaram a mera manifestação hormonal por uma abordagem mais cerebral. No entanto, o que quero dizer bate um pouco com aquele pensamento que fala sobre as pessoas não deixarem de lado a criança que existe dentro de cada um. Por um lado, talvez isso funcione com bandas de rock também: uma vez que os músicos se entregam totalmente ao lado duro e demasiadamente adulto da vida, parecem, ao mesmo tempo, estar jogando fora uma parte importante de sua essência.

Quando o Prot(o) acabou, há cerca de dois anos, sentia uma desmotivação quase anciã com meio musical, como se eu fosse uma espécie de precoce dinossauro do rock independente (poxa, eu só tinha 33 anos!): em meio a preocupações com fechamento de shows, capas de discos, aluguéis de estúdio, contatos com a mídia e com produtores nos bastidores dos festivais, havia deixado meio de lado o que tão e somente havia me atraído para aquele mundo: A MÚSICA (com letras maiúsculas mesmo). Não vi isso acontecendo só comigo, mas com muitos outros amigos que se aventuravam a levar a vida musical um pouco mais a sério. E, com poucas exceções, o que observei foi a paixão e a inocência juvenis dando cada vez mais espaço para uma relação fria, burocrática e, às vezes, cínica com o seu maior objeto de paixão.

Talvez por ter submergido tanto neste oceano obscuro da não-música é que a simples imagem de dois garotos atravessando a avenida com seus instrumentos nas costas tenha soado tão forte e libertadora naquela tarde de um fim de semana qualquer.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Feliz Metal (e um próspero Ano Novo)


Aproveitando a chegada das festas de fim de ano, deixarei este blog em recesso até a primeira — ou, dependendo da preguiça, segunda — semana de janeiro. Como anuncia o cartaz que estampa esta postagem, desejo a todos um Feliz METAL e um próspero Ano Novo (do Calendário Maia?).

Como muitos, não gosto dessa época do ano, não: acho tudo demasiadamente melancólico e repleto de obrigações sociais (comprar presentes para a família em shoppings lotados, ceias tardias e sonolentas, festas chatas de reveillon em que todos se fantasiam de médico, etc, etc). Isso sem contar com a trilha sonora regada a sinos e corais — isso me faz lembrar de um amigo que não gostou do Pet Sounds, do Beach Boys, por considerar as músicas muito natalinas — e reuniões de trabalho com a famigerada brincadeira de amigo-oculto. Tudo bem que existe um lado bom nessa história toda: a folga no trabalh... quer dizer... o sentimento de comunhão entre as pessoas. Neste ponto, apesar de não ser dos mais religiosos, a minha impressão é que a comemoração do nascimento de Cristo — motivo pelo qual se celebra a data — fica meio que em segundo plano neste período.

Continuando com minhas lamúrias natalinas, devo confessar que, depois de ir a alguns shoppings procurar um colchão novo para tornar o meu sono um pouco menos agitado, já estou de saco cheio de ouvir falar das maravilhas do tal pillow top de VISCOELÁSTICO, a aclamada tecnologia desenvolvida pela NASA. Isso me leva a refletir: será que, por ser sempre noite no espaço sideral, os astronautas tendem a dormir mais? E, de repente, por essa razão, a NASA, com tantas descobertas relevantes para fazer, como a busca de água em Marte ou o efeito da radiação solar em Mercúrio, optou por deslocar um importante grupo de cientistas só para desenvolver novos tipos de ... colchões e travesseiros? Sei lá, na minha cabeça, o sono estaria em último lugar na lista de prioridades de um astronauta que acabou de fazer sua primeira viagem ao exterior (da Terra, neste caso).

E o que dizer da febre do algodão egípcio de trocentos fios? Pelo que lembro dos meus tempos de escola, o Egito só possuía terras cultiváveis às margens do — gigantesco, é verdade — Rio Nilo. Então, não parece possível, do ponto de vista geográfico, o país ter se tornado produtor do algodão utilizado em todos os lençóis do mundo. E por que essa paranóia do número de fios, de uma hora para outra? Até alguns anos atrás, as pessoas só se preocupavam se o lençol esquentava muito ou não, se era verde, vermelho ou florido. Mas, agora, ninguém dorme com nenhum pano que não tenha menos que 200 fios. Isso também não faz muito sentido, na minha opinião, e, provavelmente, na do líder indiano Mahatma Ghandi, se estivesse vivo.

Posso dizer que o meu alento neste desgastante período natalino foi ter sido atendido por cientistas – ou eram vendedores vestidos de cientistas? Caramba, acabei de descobrir a farsa - na loja de uma famosa marca de colchões. Brincadeiras à parte, a pergunta é: será que, ao instituir o uso de jaleco aos vendedores, o dono da loja realmente achava que iria conferir credibilidade à marca? Será que existe a possibilidade de algum cliente maluco cair nessa também tresloucada estratégia de marketing? A linha de pensamento do cliente incauto deve ser: — Eu só compro colchões aqui, pois estou sendo atendido por cientistas, que têm a real capacidade de resolver os meus problemas de sono.

No meio de tantos questionamentos, reclamações e chateações, só me resta tomar um Frozen Yogurt com “topping” de lichia, respectivamente o sorvete e a fruta do momento, para refrescar as idéias.

Feliz Natal, um 2010 repleto de rock'n'rooooooll e até o ano que vem.

PS: A foto do pitoresco cartaz que ilustra o post foi tirada por um grande amigo na comercial da 516 sul, em Brasília. Infelizmente, não pude comparecer ao evento, mas, pelas atrações, posso dizer que o bicho deve ter pegado por lá.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Raul Seixas, ídolo dos mendigos


Na noite do último dia 3/12, assisti na Rede Globo ao programa Por Toda Minha Vida, dedicado ao cantor e compositor Raul Seixas. Em 21 de agosto deste ano, completaram-se duas décadas que o grande roqueiro baiano nos deixou e o programa conseguiu resgatar muitos fatos interessantes de sua vida, por meio do depoimento de amigos (como o parceiro Paulo Coelho) e familiares (as três filhas e duas ex-esposas do cantor).

Não sou exatamente um fã devoto de Rauzito, mas posso dizer que gosto (do que conheço) de sua obra e até guardo simpatia por sua personalidade. Nessas minhas incursões superficiais pelo universo “raulseixiano”, pude observar um aspecto intrigante no legado deixado pelo cantor: Raul Seixas se tornou uma espécie de ídolo dos mendigos. Comecei a notar essa peculiaridade há quase quinze anos, quando meus companheiros do Maskavo Roots e eu paramos o carro em um sinal (ou farol?) perto da avenida Rebouças, em São Paulo. Um morador de rua veio em nossa direção pedir esmola e, quando viu nossos instrumentos, nos disse animadamente: — Vocês são músicos? Então, devem gostar de Raul Seeeiiixas. É aí, ele começou a cantar o sucesso Gita (1974), fazendo um movimento de air guitar com as mãos. Depois desse episódio, passei a notar vários outros mendigos – refiro-me àqueles que não têm necessariamente origem pobre, mas, por diversas questões, passaram a viver nas ruas e à margem da sociedade – com o repertório de Rauzito na ponta da língua, inclusive um que cantava na saída da minha formatura de faculdade.

Mas de onde vem essa empatia entre Raul e os moradores de rua? Acredito que o visual do roqueiro baiano já dê pistas sobre tal fenômeno: a barba mal feita, as roupas meio envelhecidas e/ou em tom marrom e o cabelo desgrenhado fazem com que o parceiro de Paulo Coelho seja uma espécie de imagem e semelhança dessa peculiar facção do seu público. Isso faz com que o roqueiro baiano adentre um terreno no qual galãs, como Roberto Carlos, Fábio Jr. e Brian Ferry - caras que costumam cantar de terno e barba feita – nunca conseguiriam.

Porém, mais determinante do que o próprio visual talvez seja o conteúdo das canções de Raul: músicas que propõem uma sociedade alternativa, que celebram caubóis foras-da-lei, que falam sobre a experiência de ser um maluco beleza. Quando resolve aliviar e penetrar no universo infantil, qual personagem Rauzito escolhe? O Carimbador MALUCO, é óbvio. Essas características fazem com que a música de Raul Santos Seixas seja um prato cheio para quem não se liga muito em regras, se tornando uma espécie de retrato do “way of life” dos maltrapilhos.

Como não sou profundo conhecedor da obra de Raul, antes de escrever esse texto resolvi pesquisar nos sites de busca uma possível relação do roqueiro baiano com os moradores de rua e acabei me deparando com uma canção chamada “Diamante de Mendigo” (1979). Com título e temática servindo talvez de contraponto ao sucesso “Ouro de Tolo” (1973), a letra fala sobre a importância da família, evocando valores, de certa forma, tradicionalistas. Chega a ser até contraditório que a letra mais careta de Raul trate exatamente dos mendigos – imagino que essa facção “outsider” do seu público deva ter rejeitado veementemente a “homenagem” feita por Raul, da mesma forma que os punks execraram a equivocada canção “Punk da Periferia” (1983), de Gilberto Gil.

Voltando aos 20 anos sem Raul Seixas, lembro até hoje do dia de sua morte: era uma segunda-feira e, se não me engano, recebi a notícia às 13h, assistindo ao Jornal Hoje, da Rede Globo. À noite, no programa Boca Livre, apresentado por Kid Vinil na TV Cultura (retransmitida pela TVE em Brasília), a banda Maria Angélica, comandada pelo jornalista/músico Fernando Naporano - e tendo Kid Vinil como convidado - encerrou o programa tocando duas pérolas do grande roqueiro baiano: "Aluga-se" e "Rock das Aranha" (1980).

Um grande amigo meu costuma dizer que é um contrassenso chamar Raul de “o grande roqueiro brasileiro” ou o “pai do rock brasileiro”. Na visão dele, Raulzito era um exímio cantor de...boleros! De fato, do inicío com Os Panteras até o fim de sua carreira, Raul Seixas foi maneirando as guitarras em seu som e enveredando por caminhos que quebram qualquer visão mais ortodoxa do que seja considerado rock. Discussões de rótulos à parte, o mais importante talvez seja a singularidade e a criatividade contidas na obra do compositor e cantor baiano, frutos de uma salutar mistura de referências, que iam de Elvis Presley a Luiz Gonzaga. É essa marca muito pessoal que faz Raul Seixas figurar entre os grandes nomes da música brasileira.

A popularidade de Raulzito, mesmo nos dias de hoje, é de chamar a atenção, tanto pelo lado musical quanto pelo aspecto mítico que ronda sua personalidade. Fazendo uma pesquisa informal com amigos, notei que, ao zapear pelos canais, vários resolveram “parar” na Rede Globo quando se depararam com o programa sobre Raul Seixas. Isso porque sua música, sua vida e suas histórias ainda são alvos de curiosidade de seu público – seja este formado por maltrapilhos ou não. Afinal, não é qualquer artista que se transforma em uma espécie de grito de guerra genérico da platéia (já um tanto batido, é verdade) em shows do mais variados gêneros musicais: – Toca Rauuuuulllll!!! - berram os espectadores, a plenos pulmões.